Mestre na arte de versejar, senhor de virtualidades técnicas notáveis, Manuel Leal Freire é um dos maiores poetas da nossa terra.

João Valente - Arroz com Todos - Capeia Arraiana1. Observação preliminar
A simplicidade dos temas, imagens, ideias, aliada, de facto, a uma perfeição formal ímpar, concorre na sua poesia para a construção de um universo lírico de rara beleza e que fez de Leal Freire um dos poetas que mais aprecio.
A sua poesia, é, do ponto de vista técnico, um exemplo de rigor métrico, de simetria, de perfeição. O lugar de cada palavra, obedece a um desígnio sabiamente amadurecido; o mesmo se diga da escolha da forma estrófica, em quadras tão ao gosto popular; a estrutura interna dos poemas, nem curtos nem longos, revela um elevado sentido de equilíbrio, numa construção arquitectónica cuidada e minuciosa que a sabedoria de uma longa vida de escrita trazem. Há uma subtil malha de correspondências no seu interior, a deixar perceber uma verdadeira teia, onde todos os pontos se interligam por um fio condutor habilmente desenhado que desenvolve uma ideia simples subjacente a cada um dos seus poemas.
Mas Leal Freire é mais do que tecnicismo. Quer busque no quotidiano as suas imagens (os campos, a lavoura, os animais, os rituais da aldeia), quer as recolha no tempo cósmico, quer, enfim, as molde no universo rural, os seus textos são fiéis retratos da vida simples, com palavras simples, como convém à boa poesia.
As quadras são, como se disse, um exemplo de organização, ao mesmo tempo que uma manifestação de um espírito lírico sem par.
Esta conjugação da beleza poética e da riqueza lírica com o preciosismo técnico e inegáveis virtualidades linguísticas fazem dos seus poemas excelentes instrumentos de trabalho, tanto para a aprendizagem da língua, como para o do estudo da etnografia, e dos costumes de Riba-Côa, mas que pelos valores de humanismo que confere à sua poesia, tem uma dimensão universal digna de estudo.
Aqui se faz, por isso, um exercício despretensioso que visa partilhar com os leitores algumas dessas reflexões sobre a poesia de Leal Freire.
Este post é uma primeira parte de uma reflexão sobre naturalismo e idealismo, que suscita a dimensão humana e universal da sua poesia, mas que, pela extensão e complexidade de raciocínio, não é publicável num blogue. Fica, aqui, no entanto, o desejo de, com o pequeno esforço de análise do poema «A Ceia Do Lavrador», servir e aumentar a já grande comunidade dos apreciadores da magnifica escrita de Leal Freire.

2. Texto
A CEIA DO LAVRADOR
Deram os sinos trindades (1)
Por sobre as casas da aldeia
Toques de suavidades
Que prenunciam a ceia

Mas mesmo que ande de zorros (2)
O lavrador, que é bom pai,
A ver se a ceia é pra todos
Não manda, que ele proprio vai.

Começa a sua inspecção (3)
Plas vacas, gado mais nobre
Também cabonde ração
Prás cabras, vacas dos pobres.

À égua, luxo da casa, (4)
Á burra, sua cestinha,
Mangedora a feno rasa
Mais até do que convinha.

Pois na pia do cevado, (5)
Que só pra comer nasceu,
É o farelo um pecado,
De fartura brada ao céu.

O gado de bico dorme (6)
Ao fusco se regalara
Os cães aguardam que enforme
O caldo que nutre e sara

Aos animais sem razão (7)
Aconchego já não falta
A seguir vem o pregão
Chamando pra mesa a malta.

Filhos, netos, jornaleiros (8)
O conhecem e de cor
Mendigos e passageiros
Também cabem em redor.

Na mesa, que é um altarzinho (9)
Que branca toalha cobre
Não falta caldo nem vinho
Nem pão. regalo do pobre.

vem à ceia as courelas (10)
cada uma traz seus mimos
dá o quintal bagatelas
a veiga fartos arrimos

Das bouças vêm canhotos (11)
Que um bento calor evolam
E até os manigotos
Mandam cheiros que consolam

Vinhedos, chões e vergéis (12)
Primasias se disputam…
Nem as rochas são revéis
Em dura freima labutam.

As do monte mandam coelhos (13)
As da ribeira bordalos
Pirilampos são espelhos
A cegarrega é dos ralos.

As Almas Santas dos Céus (14)
Também descem para a mesa
A noite, negra de breu,
Resplandesce com a reza.

E quando acaba a litânia (15)
A prece que ceia encerra
Manda pra longe a cizânia
A paz reina sobre a Terra,

Dia um da criação (16)
A quantos na tasca estão.
(Leal Freire)

(Continua na próxima semana.)
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

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