O escritor e filósofo raiano Jesué Pinharanda Gomes acedeu ao pedido dos autores do livro «Sabugal e as Invasões Francesas» para escrever o prefácio da obra, que está em fase de edição, e tem o seu lançamento agendado para o Sabugal, na tarde do dia 2 de Abril. Com a anuência do seu autor, adiantamos um pouco do que será o prefácio.

J. Pinharanda GomesQue significado tem a gesta ribacudana das Invasões Francesas, tirante o inevitável protagonismo de Almeida? E, todavia, se é verdade que a queda de Napoleão e a derrota da França imperial começaram na Península, de modo muito particular em território português (antes de terminarem nas estepes geladas da Rússia e no cenário tonitroante de Waterloo), é também verdade que o poder napoleónico sofreu a última corrida em pêlo em território português, em Riba Coa, nos espaços dos antigos concelhos de Cima Coa, com realce para o Sabugal, de modo especial.
Napoleão foi «rei de Portugal» de facto, e de Espanha, ainda que delegasse a realeza, ou imperialidade, ou em Junot, aclamado como «El-rei Junot», celebrado na gloriosa pintura da autoria de Domingos Sequeira, ou em José Napoleão, quanto a Espanha, mas Napoleão era de facto El-rei. Viu-se e atrapalhou-se perante o cenário de uma quase primitividade bélica assente, em Portugal, numa tropa que logrou brilhar nas hostes inglesas do Arthur Wellesley, duque de Wellington, e na espontânea militância de camponeses e saloios, nas esperas das guerrilhas pelos bosques da Estremadura e das Beiras. Estas são, de resto, sublinhadas em obras especializadas de, por exemplo, Rosamund Waite (Life of the Duke of Wellington), de J. Chastenet (Wellington, com tradução portuguesa de 1945), ou, com mais pormenor, em The French Campaign in Portugal, 1810-1811, de Donald Horward. Além, claro, dos cronistas franceses que registaram os nefastos dias do Coa e do Sabugal, e dos portugueses, nas crónicas da Guerra Peninsular.
A aventura ou gesta relativa às invasões, focalizando o caso específico do Sabugal, encontra-se reconstruída e descrita neste livro, cujo epílogo põe a nossos olhos o fim, sem remissão, do General Massena, incapaz de satisfazer o projecto do Imperador, e dessa atroz figura do «Maneta», o famigerado Loison. Tudo com o fim na Batalha do Sabugal, junto ao Coa, em 3 de Abril de 1811. Fim militar, ou politico-militar, porque a outra «invasão», a ideológica, a da recepção dos ideários da Revolução Francesa (frutificante entre nós a partir de uns dez anos mais tarde, 1820), achou na presença militar franco-inglesa, oportuna sementeira.
J. Pinharanda Gomes

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