Como se diz no evangelho de S. João, «no princípio existia a palavra». Porém, para a feitura deste livro, eu preferiria dizer, no princípio havia muitas palavras, havia muitos textos. Os autores – o Coronel Manuel Veiga Mourão, o Dr. Paulo Leitão Batista e eu próprio – já tínhamos trabalhado muito sobre o tema da guerra peninsular, cada um no seu respectivo domínio.

Mas citando ainda a Bíblia, o livro da génese, poderíamos afirmar que «a terra estava ainda informe e vazia». Era portanto necessário dar um impulso à ideia de valorizar o trabalho de cada um. Para resumir, afirmaríamos, como no prefácio, que «ventos favoráveis e convergentes congregaram os autores deste livro…num intuito de recordar as invasões francesas em terras de Riba-Côa e, mais precisamente, no Sabugal».
Fazendo agora a leitura da génese do «Sabugal e as Invasões Francesas» podemos afirmar que a sua feitura assemelha-se a um conto de fadas que se pode contar assim. Era uma vez um coronel que passava os seus tempos de reformado a escrever sobre a história militar e mais particularmente sobre a participação do nosso bravo exército na chamada guerra peninsular. Os seus artigos, todos bem documentados, eram colocados gratuitamente à disposição na biblioteca digital, que alguns até desvalorizam, designada Wekipédia. Depois das minhas leituras de Charles Oman, Fortescue, Baron de Marbot, Thiers, Napier e tantos outros, voltava, de vez em quando aos artigos da Wikipédia e constatava que se encontravam ali valiosos e condensados resumos relativos a estudos que estava a realizar e, sobretudo, a batalhas travadas em terras de Riba-Côa: Sabugal, Almeida, Ponde de Almeida e cercos de Cidade Rodrigo. Era como que a repetição da matéria. Mão amiga encaminhou-me o mail do autor desses artigos e resolvi enviar-lhe os meus escritos que descreviam as mesmas épocas, em lugares coincidentes. Pela pronta resposta na volta do correio, percebi que textos destes lhe interessavam. Percebi também que estava diante de um militar que não poupava o seu sabre para cortar uma ou outra palavra, para corrigir um regimento em vez de uma divisão e, sobretudo, não consentir a despromoção de um qualquer oficial que eu não tinha colocado no seu devido posto.
A troca de mails intensificou-se e percebi que o seu saber deveria ser aproveitado para poder valorizar as gentes e as terras do Sabugal, as quais nem sequer faziam a menor ideia do valor do seu património histórico-militar. Aliando a sua generosidade e competência, o Coronel Manuel Mourão veio reconfortar-me no meu receio de não me apresentar como o profeta rejeitado da terra onde nasci ou como o santo que na sua própria terra não faz milagres. Ao meu desafio aceitou colaborar prontamente nesta aventura e trouxe-nos o seu saber técnico-militar para nos descrever a importante Batalha do Sabugal, baseada no melhor que existe actualmente sobre o assunto.
Tal como em qualquer manobra militar, o tempo é um elemento precioso muito difícil de gerir. A data das comemorações aproximava-se e apercebi-me que o escritor do Capeia Arraiana, Paulo Leitão Batista, já tinha quase um arrátel de livro escrito no seu assíduo blogue. Os dados estavam lançados. Só faltava um editor. E bati logo à porta da Orfeu, e já sabia que o Dr. Joaquim Pinto da Silva, não iria virar as costas ao Sabugal, a estas terras e a estas gentes que precisam de ser divulgadas nos seus feitos, valores e tradições. Também o grafista, Paulo Rocha, estava fiel ao seu posto. Entusiasmou-se com o manejar das armas, com os soldados que ia vestindo e revestindo para lhes colocar a devida cor das fardas da época. E até se lembrou de colocar a figura caracterizada de um soldado de cara rosada e numa posição bem british que se batia em terras portuguesas com os caçadores 3 e os Red Coat da famosa e temida Light Division.
Este trabalho escrito a três mãos foi uma verdadeira batalha ganha num tempo record. Mas, seguindo o exemplo de Lord Wellington, com tropas bem treinadas e disciplinadas pode-se manejar bem e rapidamente a escrita para ganhar ao inimigo o esquecimento, porque duzentos anos depois, é justo celebrar este acontecimento com dignidade e valor.
Além de ser um prazer para todos nós a sua escrita, este livro parece quase uma obra virtual. Por mais estranho que pareça e acredite quem quiser, nenhum dos autores se conhece pessoalmente. Nunca se viram antes. Só se conhecem por telefone e por mails. Iremos encontra-nos pela primeira vez na apresentação do livro, no auditório do Sabugal, no próximo dia 2 de Abril.
Esta é também a contribuição que os intelectuais, no bom sentido da palavra, animados num espírito cívico, pretendem ofertar às gentes e aos representantes do Sabugal, no momento em que se comemoram os duzentos anos em que o tempo de Napoleão poderia ser transformado num tempo de subserviência e subjugação perante o louco imperador que sonhou ter a Europa inteira a seus pés e que, tal como uma carraça, nunca mais largava Portugal.
Joaquim Tenreira Martins (Investigador do CAPP – ISCSP)