O medo é um dos principais fantasmas que nos assombra, ainda que, muitas vezes, seja imaginário. Ainda hoje lembro dos tenebrosos pesadelos com bruxas de chapéus gigantes!

Medo

Carla NovoSabe-se hoje em dia que nascemos apenas com dois medos: o de cair e o do barulho. Todos os outros ganhamos ao longo da vida. Coleccionamo-los e guardamos a «caderneta» numa gaveta sem fundo – até sermos, algumas vezes, obrigados a espreitar lá para dentro e sentir aquele arrepio que nos paralisa. Há quem os tente classificar – como se o grau com que nos afectam pudesse ter uma escala – e falam em «receio». Não entendo bem a diferença. Para mim, medo é medo. Mesmo sabendo que existe em nós uma capacidade incrível de os tornar mutáveis. Raramente nos damos ao trabalho de abrir a gaveta dos medos e limpá-la. Para isso são precisas, pelo menos, duas ferramentas: motivação e coragem. Lembra-se qual foi o último medo que afastou do seu caminho? Medo de perder alguém? Medo de arriscar num negócio? Medo de não corresponder às expectativas dos outros, ou até mesmo, das suas? Medo de ficar sem dinheiro? Medo de não estar saudável? Há dias andei a arrumar a minha gaveta dos medos – confesso que tenho-me esforçado o suficiente para não deixá-la demasiado cheia e correr o risco dela não fechar! É bom mantermos uma certa disciplina, do mesmo modo como tomamos banho, limpamos a casa, sacudimos as migalhas que teimam em se meter nos botões do teclado do computador. Só assim nos livramos do que nos incomoda. Apenas desta forma nos é possível «reciclar» e não ficarmos presos a uma segurança fictícia, enquanto a vida nos passa ao lado. Lembra-se de quando tirou as rodinhas da bicicleta e teve de encontrar o ponto de equilíbrio? Da coragem que teve quando caiu e para além de sacudir as pedrinhas que se cravaram no joelho ensanguentado ainda teve de carregar a maldita bicicleta? Pois é, os nossos medos são do tamanho que lhes queiramos dar e duram o tempo que a nossa coragem deixar. Vem aí o fim-de-semana, não estará na altura de fazer limpeza da sua gaveta? Ou está com medo?
«Jardim dos Sentidos», crónica de Carla Novo

carlanovo4@hotmail.com

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