Feito por mão sábia, em duro carvalho negral, o carro das vacas era um equipamento essencial para o trabalho agrícola de antanho. Com recurso ao carro o lavrador fazia o transporte das alfaias, dos fenos e do cereal e das próprias pessoas. Nos dias de romaria o carro era enfeitado com colchas coloridas e seguia pela estrada transportando romeiros.

A estrutura do velho carro visigótico, que servia na lavoura das terras altas, tinha como peças essenciais o chedeiro (que era o leito), as rodas de cambas e o eixo de pau de freixo.
Para a construção do carro o carpinteiro serrava sobre o cavalete (a burra) dois fortes paus ligeiramente recurvos numa das pontas, que constituiriam as chedas, ou seja, as partes laterais do carro. Em cada cheda eram feitos quatro furos, a fim de ali entrarem os estadulhos, destinados a segurar a carrada. Com a mesma técnica cortava, de um carvalho comprido, a cabeçalha, que era a trave colocada ao centro, e que saía para lá do leito do carro. A unir estas três traves colocavam-se travessas, que depois eram cobertas por fortes pranchas (os malhais), assim se completando o chedeiro.
A roda antiga era de cambas, que eram duas peças curvas, que se juntavam a uma peça central, o miulo (ou mium), que levava no centro um furo onde encaixava o eixo. Estas três peças eram unidas por barras de ferro em meia-lua e eram circundadas por um rasto, também de ferro, aplicado na frágua do ferreiro.
O eixo dos carros antigos era feito a partir de um tronco de freixo, que era considerada a madeira menos propícia a incendiar-se com a fricção. O eixo encaixava por baixo das chedas, nas coquetas, também designadas por margaridos, ou estreituras (o povo dizia estrituras), peças igualmente em madeira.
Estes carros de outras eras produziam um som estridente. «O chiar dos carros era o orgulho dos lavradores que, quando chegavam a alguma localidade, faziam questão que o seu carro “cantasse” bem alto», disse-nos Norberto Gonçalves no seu livro «Pedaços de um Quotidiano» (2003). Este característico chirriar (como dizia o povo) levou a que os quadrazenhos, muito propensos à onomatopeia, designassem o carro de vacas por charriante na sua gíria de contrabandistas.
Era comum o lavrador dependurar na cheda do carro um caçapo com azeite para lubrificar o eixo, evitando que a fricção entre a madeira provocasse incêndio. Para o mesmo efeito também era uso untar as coquetas e o eixo com sebo.
Na cabeçalha do carro era feito um furo, designado por chavelhal, onde se metia o chavelhão, que segurava o carro à canga das vacas. Ainda na cabeçalha, era fixada a espera, que era um prumo de madeira que servia para a apoiar, quando o carro estava parado, para alívio dos animais.
Por baixo da cheda o carro tinha tornos, que eram pequenas pontas de madeira salientes, próprios para prender as cordas usadas para segurar a carga.
Para precisamente suster a carga o carro era equipado com oito estadulhos, que eram substituídos pela sebe (ou ceto), de madeira ou de vime, mais apropriado para determinados transportes, como batatas, castanhas ou folhado.
Com o proliferar de novas técnicas o carro antigo sofreu modificações sucessivas, nomeadamente ao nível dos rodados. As cambas foram substituídas por raios de madeira, dando origem às chamadas rodas de galera. Mais tarde toda a roda era feita em ferro e depois, já na fase final, vieram as rodas de pneumático, que de todo desvirtuaram o velho carro de vacas.
Hoje o carro antigo está de todo desaparecido e até em museus rurais é raro encontrar um carro de vacas com rodas de cambas.
Paulo Leitão Batista