Uma das mais belas praças do mundo é a Piazza della Signoria, em Florença. É um local mítico, que se visita como se fosse um templo, onde se respira a atmosfera do quattrocento renascentista, e onde estamos sempre à espera de nos cruzarmos com Lorenzo di Medici, Leonardo, ou até mesmo (porque não?) a própria Gioconda! No entanto, infelizmente, com quem tropeçamos a toda a hora é com miríades de apressados turistas do mundo inteiro, sobretudo sorridentes e enviesados japoneses que disparam canons e nikons por tudo e por nada.

Estátua de Eça de Queirós (cópia actual, de bronze)

Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaUm dos motivos mais fotografados da Piazza é o famosíssimo David, de Miguel Ângelo, situado junto da entrada principal do Palazzo Vecchio. Poucas são as pessoas que não conhecem esta magnífica estátua, esculpida por Miguel Ângelo na juventude, a partir de um abandonado e informe bloco de mármore de Carrara com cerca de quatro metros de altura. Inspirado pelos ideais humanistas do classicismo greco-romano, segundo os quais o homem era a medida de todas as coisas, o genial escultor arrancou da pedra bruta a figura poderosa de um jovem herói, orgulhoso da sua beleza física e da proeza que acabara de realizar – a morte do temido gigante Golias com uma simples fisga. Quando olho para esta (ou para outras belíssimas esculturas), vem-me sempre à memória o conhecido texto «O estatuário», do Padre António Vieira, que quase todos nós, os que temos mais de 40, lemos pela primeira vez no livro «Leituras» da 4.ª classe, de que foram co-autores Cruz Filipe e Faria Artur, e ilustrador Eduardo Romero. Talvez valha a pena relembrar uma passagem desse extraordinário pedaço de prosa: «Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe, e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão; e começa a formar um homem, primeiro membro a membro, e depois feição por feição, até a mais miúda; ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afia-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama; e fica um homem perfeito, e talvez um santo, que se pode pôr no altar.»
Vem tudo isto a propósito de Miguel Ângelo, ao qual se podem aplicar com propriedade estas admiráveis palavras de Vieira. O que boa parte dos turistas-fotógrafos não sabem é que a estátua que eles fotografam de todos os ângulos e depois, orgulhosamente, mostram em casa aos amigos, não é senão uma cópia. Exactamente, uma cópia. Embora durante centenas de anos o David tivesse estado exposto ao ar livre, na Piazza della Signoria, o original encontra-se hoje no Museu da Academia. Uma obra de arte desta qualidade não podia mais continuar ali, sujeita aos efeitos devastadores da poluição, das intempéries e, principalmente, da incúria humana e do vandalismo. Evidentemente é pena que tenha que ser assim. Afinal, estas obras foram pensadas e executadas para estarem ao ar livre, são arte pública. Mas nos séculos XV e XVI não havia escapes a lançar constantemente baforadas de dióxido de carbono que tudo enegrece e corrói; nem bandos de turistas com olhos na ponta dos dedos; nem vândalos armados de sprays, que detestavam escrever nos cadernos escolares mas que agora adoram escrever nas pedras, nas paredes e nas estátuas. Perante estes tempos que vivemos, perigosos e ameaçadores para a arte ao ar livre, as autoridades italianas responsáveis pela defesa do património cultural tinham que fazer alguma coisa.
Estátua original de Eça de Queirós, hoje no Museu da CidadeE nós, que fazemos? Durante muitos anos, nada. Em Lisboa, várias peças de arte espalhadas por praças e jardins vão estando à mercê de todos os vândalos e de outros bárbaros que as queiram conspurcar ou mutilar. É o que tem sucedido, entre outras esculturas, com o Marinheiro ao Leme, de Francisco Santos, no Largo do Cais do Sodré, ou com o Adamastor, de Júlio Vaz, no Alto de Santa Catarina. E foi o que sucedeu, vezes sem conta, com o belíssimo Monumento a Eça de Queirós, da autoria de Teixeira Lopes, situado no Largo do Barão de Quintela.
Falemos um pouco mais deste último conjunto escultórico, não só por se tratar de uma das mais admiráveis estátuas de Lisboa como também por ser a que mais atentados sofreu. Lavrada em 1903 (três anos apenas após a morte do genial escritor) esta peça inspira-se numa frase de Eça de Queirós, inscrita aliás na base do monumento, e que Teixeira Lopes foi buscar ao frontispício de «A Relíquia»: «Sobre a nudez forte da Verdade, o manto diáfano da Fantasia.» Se é certo que esta frase exprime sinteticamente o essencial do programa do realismo literário, Teixeira Lopes consegue também passá-la admiravelmente à pedra. A figura da Verdade, «nua e crua», é a de uma belíssima mulher de braços estendidos, o melhor nu de toda a estatuária lisboeta, no dizer de José Augusto-França. O escritor foi retratado com grande naturalismo, em atitude de quem olha, perscruta e interroga essa Verdade que ele sempre perseguiu incansavelmente. Conforme o próprio Eça escreveu noutro lugar, o realismo «…é a análise com vista à verdade absoluta; … é a anatomia do carácter; … é a crítica do homem; … é a arte que nos pinta aos nossos próprios olhos – para nos conhecermos, para que saibamos se somos verdadeiros ou falsos, para condenar o que houver de mau na nossa sociedade.»
O Monumento a Eça de Queirós, infelizmente, foi alvo de todo o tipo de inscrições alarves e de selváticas mutilações. Aquele esplendoroso corpo de mulher exercia uma «atracção fatal» sobre os inúmeros vândalos que desciam do Bairro Alto, a desoras, transbordando de cerveja, e que não conseguiam resistir aos seus instintivos e bárbaros impulsos. Aqui há uns anos, deceparam-lhe, rentes, as duas mãos. Durante largos meses, a Câmara Municipal de Lisboa manteve-a entaipada, em restauro. Felizmente, os gessos existiam e foi possível reconstituir o que faltava, com bastante rigor. Lembro-me de ter ido a correr, fotografá-la de todos os ângulos, quando, finalmente, foi desentaipada e brilhou de novo à admirável luz lisboeta. Apressei-me, antes que a sujassem ou mutilassem outra vez. O que não tardou muito. Alguns dos leitores devem lembrar-se: dedos partidos, graffiti indecorosos, abandono! Uma dor de alma!
Hoje, quando os leitores sobem a Rua do Alecrim, ao chegarem ao Largo do Barão de Quintela, terão a surpresa de aí encontrar, no lugar do original de pedra de lioz, uma cópia de bronze da Estátua de Eça de Queirós. Não é tão bela, mas é mais resistente. Quanto ao original, encontra-se nos jardins do Palácio Pimenta, ao Campo Grande – o Museu da Cidade de Lisboa.
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

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