O leitor(a) poderá dizer que esta defesa que eu faço da Democracia não passa de retórica barata para Capeia Arraiana ler. Mas não é assim, pelo que leio, pelo que vejo, pelo que silenciam os meios de comunicação social e, pela percepção diária que tenho da comunidade em que estou inserido, existe vontade por parte de uma «elite», de desvirtuar, ou mesmo acabar com a Democracia. Aliás, os momentos históricos de crises económicas agudas são propícios a isso.

António EmidioO que quer a oligarquia financeira? Mexer nas leis laborais e adaptá-las aos seus interesses, já conseguiram, eliminar impostos a que estão sujeitas as suas fortunas, já quase conseguiram, privatizar serviços públicos para se apoderar deles, vai conseguindo, reformar o sistema de pensões aumentando a idade de reforma para quando o sistema de pensões for privatizado, enviar os cidadãos do trabalho para a tumba, sem eles terem de pagar pensão alguma, o que será só lucro, já conseguiram.
A frase que melhor ilustra tudo é esta : «os políticos devem assumir e acatar as ordens dos mercados», frase dita por um político neoliberal, com ligações à banca privada.
Para que serve o nosso voto e o nosso Parlamento? Ambos são reféns dos especuladores, isto é uma demonstração da desvirtuação da Democracia. Mas o golpe final começou a ser-lhe preparado por um grupo de oligarcas que numa reunião num país da “União Europeia” sugeriu o seguinte: modificação do sistema de partidos, ou seja, substituí-lo por uma maior presença da sociedade civil a nível político, essa sociedade civil irá garantir a estabilidade, por cima dos ciclos políticos e mandatos governamentais. Querem com isso que não haja crises políticas, o pensamento e a ideologia serão únicos, nada poderá interromper o avanço económico e, muito menos o confronto de ideias, próprio de uma verdadeira Democracia. Daqui à ditadura vai um passo. A isso chamam o bem colectivo, mas que conceito fazem do bem colectivo? São os seus interesses privados, as suas fabulosas fortunas, às quais deve estar submetida a estratégia político/económica do Estado. Para eles é necessário um novo conceito de cidadania, esse novo conceito terá como finalidade aceitar as reformas que irão submeter os governos democráticos aos seus interesses privados. Significa isto que os partidos políticos e ideologias terão um papel secundário na Democracia, o papel principal tê-lo-á uma certa cidadania manipulada pelo poder mediático.
Que cidadão querem? Não o clássico cidadão político, de pensamento democrático, cidadão de direitos, mas sim um «cidadão moderno», consumidor, eleitor de quatro em quatro anos, não critico e, produtor de riqueza. Uma máquina que produza e não pense. Não mais o cidadão com direitos políticos, sindicais e, outros. A Democracia como a concebemos presentemente terá de desaparecer, segundo a oligarquia, para dar lugar à democracia empresarial, ou seja, banqueiros e grandes empresários irão executar as políticas públicas, será a privatização da Democracia. Vamos dar já um exemplo? É ou não verdade que o direito a informar está transformado num privilégio empresarial, mais do que no legítimo direito do cidadão a ser informado?
Nunca esqueça este pormenor querido leitor(a), todo o sistema que só fala em concorrência, rentabilidade, expansão, mercados e nível tecnológico, esquecendo-se do homem, da ética, da moral e da justiça social, está a cavar a sua própria sepultura. É o que está a acontecer presentemente nesta «União Europeia» (derivado da Globalização Neoliberal).
Um dos desafios deste princípio de século é conseguir o equilíbrio adequado da iniciativa privada e do interesse público, da liberdade e da igualdade. A perca deste equilíbrio irá originar o desaparecimento da Democracia.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

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