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Na linguagem comum, quando uma desgraça se abate injustificadamente sobre alguém, é habitual utilizar-se a expressão «azar dos Távoras!». Quer isto dizer que a memória popular guarda a tragédia que, no período pombalino, vitimou uma das mais poderosas e ricas famílias da aristocracia portuguesa, a dos marqueses de Távora.

Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaNa verdade, ninguém pode dizer que está a salvo de a sua vida «dar a volta como um sino», para utilizar uma nova expressão popular. A condição humana rege-se frequentemente pela sujeição àquilo que os Gregos antigos designavam por «caprichos divinos». Aliás, o teatro grego exemplifica genialmente o fatalismo a que os homens são votados, como se fossem joguetes nas mãos de deuses caprichosos e irritadiços. É o caso da tragédia «Édipo Rei», de Sófocles. Nascido em berço de ouro, Édipo fora predestinado a matar o pai e casar com a mãe. E, por muito que todos tentassem contrariar essa fatalidade, a teia foi-se urdindo de tal maneira que o oráculo acabou por se cumprir, para desgraça de Édipo, de sua mãe-esposa Jocasta e de sua filha-irmã Antígona.
Claro que isso não significa que o ser humano se acomode fatalisticamente ao seu «destino». Não existe predestinação senão a posteriori. Só estabelecemos o destino depois de os factos se consumarem. O Homem é dotado de livre arbítrio e pode construir ele próprio o seu caminho. Aos homens que tomam o destino nas suas próprias mãos, exercendo a «vontade de poder», é que Nietzsche chama super-homens. Salvo alguns casos resultantes de uma conjugação aleatória de circunstâncias desfavoráveis, a maior parte dos nossos percursos são determinados pelas nossas opções. Digamos que, quando um exame corre mal, raramente foi «má sorte»; deveu-se, mais provavelmente, à falta de estudo. A maioria dos acidentes de viação, dos acidentes domésticos ou dos acidentes de trabalho devem-se à incúria, ao excesso de confiança, ao desleixo, à falta de civismo, à irresponsabilidade, etc. E, muito poucas vezes, à «má sorte». A sorte, quase sempre, somos nós que a construímos. O acaso (ou o destino, se quiserem), tem o seu papel, como é óbvio: azar tem o condutor que vai, devagar e tranquilamente, na sua faixa de auto-estrada, quando lhe cai em cima um auto-tanque desgovernado. Azar tem a alegre e despreocupada família que passa férias no Egipto e é vítima de um atentado à bomba por parte de fundamentalistas islâmicos. Mas não se pode dizer que o Benfica (perdoem-me que meta a minha foice em seara alheia, onde habitualmente não a meto) esteja como está «por azar». Ou que a equipa nacional de futebol não tenha ganho o último Mundial por «má sorte». O seu «destino» foi construído dia-a-dia pelos dirigentes, pelos técnicos, pelos atletas, pelos jornalistas, pelos adeptos, etc., etc.
E os Távoras, tiveram mesmo azar ou «deitaram-se na cama que fizeram»?
Em 1750, quando morreu o rei D. João V, Portugal era um típico país do «Antigo Regime»: politicamente absolutista, economicamente agrícola, socialmente hierarquizado, religiosamente dominado pelo conservadorismo inquisitorial e jesuítico.
Igreja da Memória, em Lisboa. Foi mandada construir pelo marquês de Pombal, no local onde D. José sofreu o atentado, em memória de o rei se ter salvo. Nela se encontra sepultado o próprio marquês de PombalEntre os ministros (secretários de Estado, como então eram designados) escolhidos pelo novo rei, D. José, encontrava-se Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), membro da pequena nobreza, diplomata, que tinha sido embaixador em Londres e em Viena de Áustria. Carvalho e Melo era um «estrangeirado»: absorvera por lá as novas tendências culturais reformistas e era adepto do despotismo esclarecido ou iluminado. Outro estrangeirado, Francisco Xavier de Oliveira (o Cavaleiro de Oliveira) diria mais tarde que Portugal era um relógio atrasado. Ora Sebastião de Carvalho e Melo vinha animado da firme vontade de o acertar, de fazer deste País um Estado moderno.
Tendo sido nomeado Secretário de Estado dos Negócios do Reino, não tardaria a destacar-se pela sua forte personalidade, a sua preparação política e o seu dinamismo, sobretudo quando teve que encarar as consequências do grande terramoto de 1755. D. José dá-lhe cada vez mais poderes, tornando-o um verdadeiro superministro. No final da década de 50 seria feito conde de Oeiras e, já nos anos 70, perto do final do seu consulado, marquês de Pombal.
O grande objectivo de modernização do País e do Estado passava por reformas económicas, educativas e administrativas. A todas elas Pombal meteria ombros. Não é agora a altura de descrevermos exaustivamente a sua acção nesses domínios. Em qualquer livro de História, enciclopédia ou dicionário os leitores encontrarão esse estudo.
Para levar a bom termo o seu ambicioso projecto de transformação de Portugal, porém, era também necessário enfrentar os poderosos (o clero, particularmente a Companhia de Jesus, um verdadeiro «Estado dentro do Estado», e a nobreza), retirando-lhes privilégios, obrigando-os a obedecer ao poder real sem hesitações, fazendo o «nivelamento social» pela promoção da burguesia mercantil e financeira – em suma, aplicando o despotismo esclarecido.
Em 1758, Pombal teve uma ocasião soberana para levar a efeito estes propósitos: segundo a versão oficial, na noite de 3 de Setembro, vários homens, a soldo do duque de Aveiro e dos marqueses de Távora, tentaram matar D. José, no local onde hoje fica a Igreja da Memória, em Lisboa, disparando contra a carruagem real. Segundo se diz, o rei regressaria de um encontro amoroso com a marquesinha de Távora. D. José escapou, embora ferido, mas os cabecilhas da conspiração não escaparam.
Mantido inicialmente em segredo, o atentado desencadeou uma ferocíssima repressão sobre alguns sectores da alta nobreza, acusados de conspirar para matar o rei e afastar o seu poderoso ministro que, entretanto, tinha ganho muitos inimigos.
Três meses depois encontravam-se presos o duque de Aveiro e o marquês de Távora, bem como quase todos os membros das suas famílias, incluindo o marquês de Alorna e o conde de Atouguia, genros do marquês de Távora. E ainda os condes de Vila Nova, de Óbidos e da Ribeira Grande, para além de muitos outros nobres e pessoas de todas as classes.
O duque de Aveiro, sujeito a apertados interrogatórios, viria a comprometer gravemente o marquês de Távora, D. Francisco, a marquesa, D. Leonor, e os seus filhos, Luís Bernardo e José Maria. O marquês e o filho mais velho negaram sempre o seu envolvimento no atentado. José Maria de Távora e o cunhado, o conde de Atouguia, violentamente torturados, fizeram uma confissão completa.
Em 12 de Janeiro de 1759 foi publicada a sentença e no dia 13 os condenados foram conduzidos a um patíbulo erguido propositadamente em Belém, junto do mosteiro dos Jerónimos. A marquesa D. Leonor de Távora foi degolada. O marido, os dois filhos e um dos genros, o conde de Atouguia, foram supliciados (os condenados ao suplício eram sujeitos a terríveis sofrimentos, até à morte, como a quebra de ossos à marretada, o esticamento dos membros, etc.).
Padrão do Chão SalgadoO velho marquês de Távora, por exemplo, foi condenado a ser «exautorado de todas as honras, dignidades e comendas, a ter as canas das pernas e dos braços partidas, a ser depois rodado [esticado e morto numa roda] e a picarem-se as suas armas». Os bens da família foram integralmente confiscados a favor do Estado e da Coroa, o título extinto e o uso do apelido Távora proibido para todo o sempre. Luís Bernardo e José Maria de Távora foram igualmente executados através das mais horríveis torturas. A crueldade das penas impressionaria vivamente todas as cortes europeias.
O duque de Aveiro, o único cuja responsabilidade no atentado ficaria provada sem qualquer margem para dúvidas, foi igualmente condenado a ser supliciado. O ducado de Aveiro foi extinto e todos os bens da família confiscados. O seu palácio de Lisboa, situado mais ou menos onde hoje fica a Fábrica dos Pastéis de Belém, foi completamente arrasado e o próprio chão foi salgado, uma prática muito antiga (os Romanos fizeram isso à cidade de Cartago, depois de a destruírem), cujo simbolismo é óbvio: para que ali nada mais crescesse. Ainda hoje o local se chama Largo do Chão Salgado.
A esposa de Luís Bernardo de Távora, D. Teresa (a marquesinha), permaneceria em prisão conventual quase 20 anos, até à morte do rei, em 1777. Também o marquês de Alorna seria mantido preso até ao afastamento de Pombal.
Depois deste severíssimo exemplo, a nobreza não conspirou mais para afastar Pombal, embora nunca lhe perdoasse. Dominada a aristocracia, chegava a vez do clero: a Companhia de Jesus, a mais rica, influente e poderosa ordem religiosa do País, foi expulsa nesse mesmo ano de 1759 e todos os seus edifícios e propriedades passaram para a posse do Estado. A autoridade real (leia-se a do marquês de Pombal) tornava-se assim incontestada. Era agora a vez de implementar as reformas económicas e culturais. E assim se fez, como se sabe.
Padrão do Chão SalgadoEm 1777 morre o rei D. José. Com a «viradeira», chegava a vez de os inimigos de Pombal se erguerem. Sebastião José de Carvalho e Melo foi afastado por D. Maria I de todos os seus cargos, sendo-lhe instaurado um processo que o condenou ao exílio para as suas terras de Pombal, onde viria a falecer em 1782, com 83 anos de idade. O povo resumiu o seu governo numa frase lapidar: «Pombal fez muito bem e muito mal.» No entanto, anos mais tarde, era já lembrado com saudade: «Mal por mal, antes Pombal.»
Logo em 1777, D. Maria I ordenou a libertação daqueles que, relacionados com o processo de 1759, ainda se encontravam na prisão, restituiu os bens e dignidades aos Távoras, incluindo o uso do nome, mas o título de marquês nunca seria recuperado. Uma das mais poderosas famílias do País era agora uma pálida sombra daquilo que tinha sido. «Azar dos Távoras».

Padrão do Chão Salgado, em Belém, erguido no local onde tinha sido o palácio do duque de Aveiro, executado como regicida em 1759. Na base desta coluna pode ler-se a seguinte inscrição: «Aqui foram as casas arrasadas e salgadas de José de Mascarenhas, exautorado das honras de duque de Aveiro, e outras, e condenado por sentença proferida na Suprema Junta da Inconfidência, em 12 de Janeiro de 1759, justiçado como um dos chefes do bárbaro e execrando desacato que na noite de 3 de Setembro de 1758 se havia cumulado contra a real pessoa de el-rei nosso senhor D. José primeiro. Neste terreno infame se não poderá edificar em tempo algum.»
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

Kim Prisu, o pintor de Aldeia da Dona, concelho do Sabugal, vai ter uma exposição de pintura intitulada «Fragmentos de Tempos», que é inaugurada a 28 de Janeiro, na Galeria da Biblioteca Municipal de Palmela.

O pintor reside no Pinhal Novo, concelho de Palmela, e tem participado em diversas exposições em todo o país e também no estrangeiro.
Kim Prisu, aliás, Joaquim António Gonçalves Borregana, nasceu em 1962 em Aldeia da Dona e emigrou para França com apenas nove meses de idade. Rendido, desde cedo, ao mundo da arte, criou com Quim P., nos anos 80, em Paris, o conceito Nuklé-Art. Realizou exposições pessoais e colectivas e, em 1990, foi convidado pela galeria «East SideGallery – GDR» de Berlim para pintar sobre o Muro, na parte oriental.
Em Novembro de 2009, foi, novamente, convidado a regressar à Alemanha para participar na cerimónia comemorativa dos 20 anos da queda do muro e para recuperar a pintura original. Bastante ligado ao teatro, fez o seu primeiro cenário ainda em França e, hoje, colabora com o teatro Aquilo da Guarda, com o Teatro Artimanha de Pinhal Novo e com o Bando.
A sua exposição estará patente até 19 de Março, numa organização da Câmara Municipal de Palmela.
plb

JOAQUIM SAPINHO

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