Há um par de anos, num bem regado almoço com um grupo de colegas, classifiquei um tinto alentejano com uma expressão bem portuguesa – «Isto é cá uma pomada!» Logo um amigo que estava ao meu lado perguntou qual seria a origem de tal expressão. E, viciado como sou nas explicações de natureza histórica, iniciámos uma animada conversa sobre esta e sobre muitas outras «palavras com história». Existem muitos exemplos curiosos, alguns dos quais poderão ser interessantes para os leitores.

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Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaQuando vamos a uma casa de penhores, ainda dizemos «pôr no prego». Se se pergunta o significado desta expressão, as pessoas associam-na ao facto de muitas das coisas empenhadas se poderem pendurar em pregos, como um colar, um anel, uma pulseira. Nada disso: a expressão nasceu na segunda metade do século XIX, porque a maior parte das casas de penhores de Lisboa pertenciam a um prestamista de apelido «Prego». Então, «pôr no prego» era «pôr no Senhor Prego».
O leitor, quando pede uma «imperial», já se questionou por que razão se lhe chama assim? No Porto, por exemplo, diz-se «fino», mas a razão é fácil de perceber: porque os copos em que se serve a cerveja são habitualmente finos, estreitos. Mas porquê «imperial»? No começo do século XX, a principal produtora de cerveja, em Portugal, era a Fábrica Germânia Imperial, que foi a primeira a vender cerveja à pressão. Portanto, uma «imperial» não era senão um copo de cerveja da Germânia Imperial. Resta acrescentar que, em 1916, quando Portugal declarou guerra à Alemanha, confiscou todos os bens germânicos e, portanto, também a fábrica de cerveja, que mudou o nome para… Portugália (muito mais nacionalista, aliás). Da próxima vez que o meu estimado leitor for à cervejaria Portugália da Avenida Almirante Reis, em Lisboa, suba ao 1.º andar: verá, no patamar, um painel de azulejos com o símbolo da Fábrica Germânia Imperial e uma legenda com a explicação que acima acabou de ler.Outro exemplo muito conhecido: quando perdemos alguma coisa valiosa, ou quando alguém desaparece, dizemos que «foi para o maneta». Porquê? Durante as três invasões francesas, entre 1807 e 1811, o chefe da polícia invasora foi o terrível general Loison, que era… maneta. E, quando algum patriota português lhe caía nas mãos (ou, melhor, na mão!), nunca mais aparecia. «Ia para o maneta…». A partir de então, pouco a pouco, o povo passou a usar a expressão com o sentido que hoje tem.Ainda outro exemplo da mesma época: «Ficar a ver navios…» A origem desta expressão, utilizada quando alguém fica com as suas expectativas frustradas, tem que ver com a 1.ª invasão francesa, em 1807. Napoleão tinha ordenado ao general Junot que aprisionasse a família real portuguesa; todavia, apesar de caminhar a marchas forçadas com o seu exército, quando Junot chegou à capital já o príncipe regente D. João e a sua numerosa comitiva tinham partido, a bordo de 55 navios, a caminho do Brasil; o general francês ainda avistou os últimos, ao largo de Cascais, mas nada pôde fazer; ficou, portanto… «a ver navios». Obviamente, não é só em português que existem estas «palavras com história. Apenas um exemplo inglês. Quem conhece Londres sabe que um dos seus numerosos jardins é o Green Park. Porquê o nome? Verde é o que não falta em todos eles. Então porque é que este se chama Green? Em 1659, no âmbito da afirmação do Portugal Restaurado pela diplomacia lusa, foi acordado o casamento de D. Catarina de Bragança, filha de D. João IV, com o rei Carlos II de Inglaterra. Foi a famosa rainha que introduziu o hábito do chá na Grã-Bretanha. O tão «british» chá das cinco é afinal de origem portuguesa. Mas D. Catarina foi muito infeliz no casamento. Nunca conseguiu ter filhos e o marido tornou-se um incorrigível mulherengo. Um dia, quando Carlos II passeava com a rainha e as suas damas de companhia no parque que rodeava o palácio, ele cortou uma flor e a rainha, naturalmente, estendeu a mão. O rei, porém, ofereceu-a a uma das jovens aias. Humilhada e enfurecida, D. Catarina ordenou aos jardineiros que arrancassem todas as flores desse jardim e que jamais as voltassem a plantar: só relva e árvores. A sua vontade seria respeitada até hoje, nascendo assim o Green Park.
Então e a nossa «pomada»?
Neste caso, como diria o prof. Hermano Saraiva, «trata-se de uma ideia cá minha». Na verdade, apesar de ter feito uma pesquisa bibliográfica exaustiva, não encontrei qualquer explicação para esta expressão tão popular, frequentemente pronunciada depois de se beber uma «boa pinga»: «Isto é cá uma pomada!» Mas «pomada» porquê? Porque «escorrega» bem pela garganta abaixo? Não tem muito sentido. Vamos a um pouco de História.
Em 1916, como acima já se referiu, Portugal entrou na I Guerra Mundial, ao lado dos Aliados, enviando dezenas de milhares de soldados para a Flandres e para o Norte da França. A maioria destes soldados nunca tinha visto mais do que os estreitos horizontes da sua aldeia. A guerra das trincheiras seria para eles uma duríssima provação e uns bons milhares ficaram para sempre sepultados em terra estranha. Mas, de vez em quando, os da linha de combate eram substituídos, para gozarem uns breves dias de repouso. Iam então às aldeias e cidades francesas próximas da frente de batalha, às «casas de meninas» e às tabernas. Bebiam geralmente vinho corrente, porque para mais não dava o magro pré. A não ser quando algum mais abonado resolvia comprar vinho engarrafado, uma «botelha» de um dos afamados vinhos de Bourgogne.
Eis um preçário de 1915, em francos por garrafa: Ordinário: 0,60; Mâcon: 1; Mâcon vieux: 1,5; Beaunne: 2,5; Pommard: 3,5; Chambertin: 5. Os nossos soldados dificilmente chegariam a um Chambertin ou a um Clos-Vougeot, muito menos ainda a um Romanée-Conti ou a um La Tâche, mas o Pommard, embora caro, era mais acessível. E, bebendo esse raro néctar, muito melhor que qualquer outro que já lhes tinha descido pela garganta, exclamavam: «Que pomada!» Quando regressaram a Portugal, os combatentes da Flandres trouxeram na memória o gosto do Pommard. E, se um dia voltavam a provar um vinho que se lhe assemelhasse, voltavam a exclamar: «…Isto é cá uma pomada!»
Em 2002 visitei a região dos grandes vinhos de Bourgogne, incluindo Pommard, onde fiz uma das fotografias que ilustram este artigo. E, para comprovar a minha «tese» (embora a História não seja uma ciência experimental…) bebi com a família, no último Natal, a garrafa de Pommard que o leitor pode ver na noutra fotografia. Garanto-vos que, na verdade, era uma «bela pomada!»
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

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