Quando alguém está em perigo, na iminência de um drama, logo há quem dê lugar a orações e invocações, apelando à intervenção divina. Em situações limite a fé apresenta-se como único recurso para obviar uma aflição. Foi assim ao longo dos tempos, e um dos testemunhos dessa realidade são os ex-votos, que constituem um património popular de grande valor.

As populações que viviam em pequenas comunidades, estavam entregues a si mesmas, isoladas do mundo, sem meios de socorro, e muitas vezes, perante o desespero, nada mais restava que rezar, apelando a Deus, por intermédio dos santos predilectos e da Senhora Sua Mãe, uma intervenção miraculosa.
Quando havia sinais que as preces foram ouvidas, a gente humilde queria agradecer a intervenção divina. A falta de meios materiais levava o povo a recorrer ao que tinha ao seu alcance. Agradecia através de pequenas e toscas esculturas de madeira ou pinturas em tábuas, que depois se iam depositar na capela ou ermida onde tinha abrigo o santo protector. Eram os ex-votos.
Se foi doença grave, de onde houve cura milagrosa, o crente pegava numa tábua, e ali desenhava o doente a padecer no leito, rodeado da mulher e dos filhos, contemplando a Virgem, que viera para lhe valer. Em rodapé uma legenda, que continha, em português vernáculo, o agradecimento pelo milagre. Mas se foi acidente, o quadro retratava o infeliz momento, contendo sempre a pequena legenda. Se a doença estava numa perna ou num braço o ex.-voto podia ser uma representação em madeira do membro afectado, talhado a podoa e navalha.
Tomemos como exemplo um ex-voto da vila de Gonçalo, concelho da Guarda, depositado na igreja local, onde se representa toscamente um homem a ser mordido no braço por um cão raivoso, com a Senhora no canto superior direito e parte do corpo envolto numa nuvem. Por baixo, a mensagem escrita:
Milagre q. fez N. S. da Mezericordia a Jozé, Prª da Quinta da Gaia, q. mordendo-lhe hum cão danado, N. S. lhe acodio, não teve prigo. No anno 1843.
Diga-se que nem tudo são representações ingénuas, efectuadas por quem não domina as técnicas da arte. Há tábuas que são autênticas obras-primas, onde transluz a sapiência do mestre que produziu uma autêntica peça de arte, de inestimável valor.
Em todo o País, mas em especial nas Beiras, há templos onde os ex-votos estão apinhados a um canto, a tapar um buraco ou servindo de estante improvisada. Noutros casos, as tábuas já desapareceram, porque viram nelas um estorvo e ninguém lhes achou utilidade. Poucos lugares de culto cuidaram deste relevante património, mescla entre a arte popular e a arte sacra, testemunho de fé e objecto de valor artístico que se deveria preservar.
Urge sensibilizar as comissões fabriqueiras das igrejas paroquiais, as comissões que tratam da preservação de capelas e ermidas, as ordens religiosas com lugares de culto a seu cargo, em suma toda a população, para a conveniência em preservar o património religioso que está depositado, mesmo quando parece ser algo sem valor, que apenas ocupa lugar. Em especial, é de atender à recolha e catalogação dos ex-votos, mesmo os mais toscos e em avançada deterioração, pois são um importantíssimo testemunho da fé popular, das preocupações das pessoas, da linguagem utilizada, das doenças e das catástrofes que se abateram sobre as populações. Riquíssimas fontes da História da religião popular e da Etnografia que é necessário guardar em acervo. Em Pinhel felizmente alguns ex-votos foram recolhidos no Museu Municipal, quase todos de invocação a Nossa Senhoras das Fontes.
Podiam-se recolher os ex-votos nos museus de arte sacra, que já vão existindo nos maiores centros, seria uma boa e prática solução. Contudo, sempre se dirá que o ex-voto deve, de preferência, ser contemplado no seu lugar de origem, onde foi depositado por mãos de quem teve fé e quis agradecer uma graça recebida. Em cada lugar há um misticismo próprio, no seio do qual os ex-votos melhor poderão ser apreciados. Por isso se revela importante a recuperação dessas peças de arte e a sua exposição nas igrejas, capelas e ermidas, para que quem passe tenha a real possibilidade de as admirar.
Paulo Leitão Batista

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