Alguém definiu cultura como aquilo que fomos, o que somos e o que queremos ser. Ao longo da História desta Europa, a cultura foi monopólio da Igreja, depois dos Estados e, presentemente das empresas.

António EmidioDurante a Idade Média a cultura esteve nas mãos da Igreja, era a cultura eclesiástica, uma visão eclesiástica do Mundo, o saber estava nos conventos, igrejas e mosteiros. Depois surgem os Estados como mentores do conhecimento e do saber. A Revolução Francesa liberalizou a cultura. Se virmos a história de Portugal, nela veremos que após o vintismo (Revolução Liberal de 1820), quase todos os governos tiveram a preocupação de fazer reformas na educação e na cultura. A República, já em princípios do século XX foi o expoente máximo nesse campo.
Na Europa do pós II Guerra Mundial, nos Estados Estalinistas, e nos Estados Ditatoriais de países como Portugal e Espanha, a cultura não passava de uma propaganda ideológica. Nos Países Democráticos a cultura simbolizava avanço social e também civilizacional, quando se quiseram pôr entraves a este avanço surgiu o Maio de 68 em França e, revoltas noutros países.
Chegámos aos dias de hoje, o que é a cultura presentemente neste Ocidente? É um simples passatempo banal, ligado à comercialização, é uma cultura televisiva. A verdadeira cultura ainda sobrevive, mas é marginalizada. Qual a diferença entre as duas? Vamos pôr com exemplo os livros; todo o escritor que escreve a favor do sistema, vê os seus livros publicados pelas grandes editoras e recebe prémios. Ao escritor anti-sistema tudo lhe está vedado. Isso faz com que cada vez encontremos mais escritores, intelectuais e artistas procurar êxito comercial e ganhar bom dinheiro. Os bens culturais noutras épocas estavam vinculados à ética e à verdadeira cultura espiritual. Agora transformaram-se numa mercadoria como outra qualquer. Esta é a cultura do Neoliberalismo que não passa de uma simples vulgaridade e mediocridade.
Qual o papel do poder político nisto tudo? Recebe ordens do económico, e é de uma aridez cultural impressionante. Berlusconi, por exemplo, entregou a direcção dos museus italianos, esse património cultural fabuloso, a um amigo, ex-gestor da empresa multinacional Mc Donalds. Outro pequenino grande exemplo: aqui bem perto, no Concelho da Guarda, um Presidente de Junta de Freguesia interrompeu uma manifestação cultural, música erudita, a toques de vuvuzela.
Em alguns países europeus estão a entregar-se bibliotecas públicas a empresas privadas, o que significa que quem quiser ter cultura tem de pagar a alguém, para esse alguém enriquecer. Na Alemanha da senhora Merkel querem que os jardins-de-infância paguem pelas canções que as crianças cantarem agora nestas festas de Natal.
Vou dizer o que já disse dezenas e dezenas de vezes: a presente ciência económica europeia não admite outra finalidade senão os benefícios empresariais, esta é a realidade, por mais que os apologistas do sistema digam o contrário.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

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