You are currently browsing the daily archive for Terça-feira, 4 Janeiro, 2011.

Dissemos em crónica anterior que o general Foy esteve por quatro vezes no Sabugal por ocasião dos movimentos militares franceses ligados à terceira invasão. A primeira numa estada de 15 dias, integrado no corpo de Reynier, e outras três apenas de passagem, servindo de emissário entre Massena e Napoleão.

O general Foy acampou no Sabugal no início da terceira invasão, comandando uma brigada da divisão Heudelet, do 2.º corpo do exército francês, que ocupou os concelhos do Sabugal, Alfaiates e Vilar Maior, de 27 de Agosto a 11 de Setembro de 1810.
Esteve depois no Sabugal apenas de passagem, enquanto emissário de Massena para com o Imperador dos franceses. É pois das peripécias dessas perigosas missões que nos propomos falar.
Com o exército bloqueado pelas Linhas de Torres, Foy partiu de Santarém, a 1 de Novembro de 1810, portador de uma mensagem de Massena, à frente de um destacamento de 400 homens. Seguiu em marchas forçadas, tentando evitar os locais onde fosse facilmente atacado pelas milícias portuguesas que estavam muito activas nos territórios que não estavam ocupados pelos franceses. Os anteriores emissários de Massena, encarregados de comunicarem com os militares franceses que estavam na praça de Almeida e em Espanha, haviam sido mortos ou capturados, estando o exército invasor completamente isolado. Atravessar esses territórios, enxameados de milícias e de ordenanças, era pois aventura de altíssimo risco.
Em Abrantes tomaram o destacamento de Foy pela vanguarda dos franceses em retirada e fecharam-se na fortaleza. Dali seguiu na direcção de Castelo Branco e, já depois de passar junto a esta cidade, foi atacado por portugueses da ordenança, que lhe provocaram algumas baixas, e conseguiu livrar-se de um recontro com as milícias do general Silveira que tinham saído de Pinhel e seguiam para Abrantes.
Tomou o caminho de Penamacor e passou seguidamente no Sabugal, já com as tropas completamente extenuadas, pois seguira sempre em marchas forçadas, mal parando para descansar. Atingiu a fronteira no dia 7 de Novembro e entrou em contacto com militares franceses que o judaram a chegar a Ciudad Rodrigo e a prosseguir viagem para Paris.
O tenente Jean-Baptiste Barrés, que fez parte desse destacamento de Foy, descreveu a ousadia da missão: «Empreender uma expedição tão arriscada, com tão pouca gente, era muito ousado; mas o general era activo, empreendedor, e tinha ao seu lado um português que conhecia a região e um ajudante-de-campo que falava a língua, para interrogar os habitantes que encontrássemos ou os prisioneiros que fizéssemos.»
Voltou de França nos finais de Janeiro, em pleno Inverno, e fez o caminho inverso em direcção ao exército de Massena. Saiu de Ciudad Rodrigo com uma coluna de 500 homens, passou a fronteira e atingiu o Sabugal, passando depois por Sortelha, Belmonte, Pêraboa, Ferro, Alcaria, Freixial, procurando sempre caminhos secundários para evitar maus encontros. No dia 1 de Fevereiro, perto do Castelejo, foi impiedosamente atacado por ordenanças, o mesmo se passando no dia seguinte, perdendo aí uma boa parte dos seus homens. Porém conseguiu prosseguir viagem e no dia 5 de Fevereiro entrou em contacto com as linhas francesas junto à foz do Zêzere, perto de Punhete (agora Constância), entregando seguidamente os ofícios a Massena.
O jovem tenente Bauyn de Péreuse, que veio de França para integrar o exército de Massena, acompanhou o general Foy nesta perigosa aventura de regresso a Portugal e descreveu as jornadas nas suas memórias. Ao entrarem em Portugal pernoitaram numa pequena aldeia raiana abandonada pelos habitantes. O oficial não indica o nome da aldeia, mas era certamente uma povoação do actual concelho do Sabugal:
«Pernoitámos numa cabana de camponeses; encontrámos nas armações, colocadas sobre os barrotes que sustentavam o tecto, uma grande quantidade de castanhas secas, de que tirámos o melhor proveito e que substituíram frequentemente o pão durante a marcha.
As chaminés, nesta zona, são completamente desconhecidas. Faz-se uma fogueira e o fumo liberta-se através das telhas, contribuindo assim para secar as castanhas.
Por pouco não nos tornámos incendiários e não ficámos assados no nosso covil. Fazia frio. Lefranc encontrou uma arca velha, que desfez em pedaços; pusemos as tábuas no fogo, para o activar, num instante as chamas subiram até às aramações, incendiaram-nas e atingiram o tecto; felizmente a barraca estava isolada e o fogo não se comunicou às outras casas da aldeia.
»
O jovem tenente descreve depois as jornadas na Beira, debaixo de chuva e de neve e sob o frio intenso das terras serranas por onde a coluna deambulou, referindo ainda os ataques de que foram alvo por parte das ordenanças e dos camponeses, que os emboscavam a todo o instante. Foi assim até ao final da viagem, valendo a coragem e a tenacidade do general, que seguiu sempre em frente até cumprir a sua missão.
A 7 de Março, um mês após o seu regresso às linhas francesas, Foy parte de novo com a missão de ir a Paris com outra missiva de Massena para Napoleão Bonaparte anunciando-lhe a retirada francesa. Saiu de Tomar com apenas cinquenta cavaleiros por escolta, mas a experiência das outras expedições levaram-no a seguir de dia e de noite por caminhos pouco frequentados, evitando as povoações. Tendo pela quarta vez o Sabugal no seu percurso, consegue atingir a fronteiras sem encontros desagradáveis.
Paulo Leitão Batista

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Alguém definiu cultura como aquilo que fomos, o que somos e o que queremos ser. Ao longo da História desta Europa, a cultura foi monopólio da Igreja, depois dos Estados e, presentemente das empresas.

António EmidioDurante a Idade Média a cultura esteve nas mãos da Igreja, era a cultura eclesiástica, uma visão eclesiástica do Mundo, o saber estava nos conventos, igrejas e mosteiros. Depois surgem os Estados como mentores do conhecimento e do saber. A Revolução Francesa liberalizou a cultura. Se virmos a história de Portugal, nela veremos que após o vintismo (Revolução Liberal de 1820), quase todos os governos tiveram a preocupação de fazer reformas na educação e na cultura. A República, já em princípios do século XX foi o expoente máximo nesse campo.
Na Europa do pós II Guerra Mundial, nos Estados Estalinistas, e nos Estados Ditatoriais de países como Portugal e Espanha, a cultura não passava de uma propaganda ideológica. Nos Países Democráticos a cultura simbolizava avanço social e também civilizacional, quando se quiseram pôr entraves a este avanço surgiu o Maio de 68 em França e, revoltas noutros países.
Chegámos aos dias de hoje, o que é a cultura presentemente neste Ocidente? É um simples passatempo banal, ligado à comercialização, é uma cultura televisiva. A verdadeira cultura ainda sobrevive, mas é marginalizada. Qual a diferença entre as duas? Vamos pôr com exemplo os livros; todo o escritor que escreve a favor do sistema, vê os seus livros publicados pelas grandes editoras e recebe prémios. Ao escritor anti-sistema tudo lhe está vedado. Isso faz com que cada vez encontremos mais escritores, intelectuais e artistas procurar êxito comercial e ganhar bom dinheiro. Os bens culturais noutras épocas estavam vinculados à ética e à verdadeira cultura espiritual. Agora transformaram-se numa mercadoria como outra qualquer. Esta é a cultura do Neoliberalismo que não passa de uma simples vulgaridade e mediocridade.
Qual o papel do poder político nisto tudo? Recebe ordens do económico, e é de uma aridez cultural impressionante. Berlusconi, por exemplo, entregou a direcção dos museus italianos, esse património cultural fabuloso, a um amigo, ex-gestor da empresa multinacional Mc Donalds. Outro pequenino grande exemplo: aqui bem perto, no Concelho da Guarda, um Presidente de Junta de Freguesia interrompeu uma manifestação cultural, música erudita, a toques de vuvuzela.
Em alguns países europeus estão a entregar-se bibliotecas públicas a empresas privadas, o que significa que quem quiser ter cultura tem de pagar a alguém, para esse alguém enriquecer. Na Alemanha da senhora Merkel querem que os jardins-de-infância paguem pelas canções que as crianças cantarem agora nestas festas de Natal.
Vou dizer o que já disse dezenas e dezenas de vezes: a presente ciência económica europeia não admite outra finalidade senão os benefícios empresariais, esta é a realidade, por mais que os apologistas do sistema digam o contrário.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

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