Estamos na Europa civilizada, Vilar Formoso é logo ali [e] o país vai de carrinho. Camões e Eça vendem-se enlatados, lavados com «champon». Das eleições acabadas, do resultado previsto saiu o que temos visto, [mas] toca de papelada no vaivém dos ministérios, [que] lambuzam de saliva os maiorais.

José Afonso

João Aristides Duarte - «Memória, Memórias...»[O Governo] faz da bolsa do Povo cofre-forte do bancário [e] despreza a ralé inteira como qualquer plutocrata. Morde pela calada, anda aí à solta, não o deixes bulir. Dá-lhe na corneta até se cansar, mofina de mim, bem o vejo trepar. Ninguém o chora agora.
Alguma gente enganaste, nunca te vimos tão longe daquilo que tens pregado. Estás sempre em traje de gala, a brincar aos Carnavais. Será o Christian Dior a mandar no país?
A palavra socialismo como está hoje mudada, dinheiro seja louvado, a mim quem me vence é o patrão. E o banqueiro? A Ferrugem? Mete-os na forma. Queima-os na fornalha.
A Banca é boa para falir. Chupam-te até ao tutano, levam-te o couro cabeludo. E não se esgota o sangue da manada. Mandadores de alta finança fazem tudo andar p’ra trás. Anda ver o Deus banqueiro, que engana à hora e rouba ao mês.
Às aranhas anda o pobre sem saber quem o maltrata. Onde não há pão não há sossego. O que faz falta é dar poder à malta [e construir uma] cidade sem muros nem ameias, capital da alegria.
Ainda bem que é para breve o Festival e o Campeonato do Mundo no primeiro canal, ainda bem que apostei no Totobola.
Gastão era um parapeito de Papas e Cardeais, não fora Gastão dos fracos e já seria ministro. Acima da pobre gente subiu quem tem bons padrinhos, todos lhe apertam a mão, é homem de sociedade. Vejam bem daquele homem a fraca figura.

O texto acima é uma colagem de versos de diversas canções de José Afonso, de diferentes épocas, algumas de antes do 25 de Abril de 1974 e outras já de uma época pós- Abril. Considero José Afonso a maior referência de toda a música portuguesa do século XX. Independentemente da sua importância musical, que é fundamental no desbravar de novos caminhos para a música popular portuguesa, não se pode esquecer a intervenção cívica de José Afonso e tudo o que isso representou e continua a representar. O seu inconformismo continua com uma actualidade total. Não será por acaso que José Afonso continua a ser cantado por representantes da nova geração de músicos portugueses. Para cima de duzentas versões de canções de José Afonso conheço eu, muitas das quais em linguagens como o Rock, a Pop, o Fado ou mesmo o Jazz. O verdadeiro cantor popular que continuará a perdurar por muitos e muitos anos, por mais modas que apareçam e desapareçam.
Apesar de José Afonso ter falecido há perto de 24 anos, não há qualquer dúvida que a sua mensagem se mantém o mais actual possível. Basta ler os versos acima reproduzidos para se perceber isso mesmo. Independentemente dos Governos que têm passado por este país (da responsabilidade do PS, PSD e CDS), nestes últimos 34 anos, a mensagem de José Afonso mantém actualidade. Basta lê-la.
Ainda recentemente estive a ver um vídeo onde José Afonso refere, sem qualquer paternalismo (que eu sei que ele detestava) à situação dos jovens nos anos 80 do século passado e a sua mensagem não podia ser mais actual.
«Política, Políticas…», opinião de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com