O general francês Gardanne viveu um autêntico pesadelo em Portugal, quando atravessou a fronteira com o objectivo de entrar em contacto com as tropas de Massena, que estava no Ribatejo. Enfrentando uma hostilidade sem limites, o general passou com as suas tropas pelo Sabugal, na rota de ida e na de regresso.

Há duzentos anos, por este tempo, em Dezembro de 1810, as tropas da terceira invasão francesa, comandadas por Massena, estavam agrupadas em redor de Santarém, esperando reforços. Os soldados viviam da pilhagem e cometiam toda a espécie de atrocidades contra os habitantes que procuravam esconder-se dos invasores, vivendo em constante sobressalto.
O Sabugal, que estivera no percurso da invasão, continuou a ser local de passagem de tropas. Massena decidira enviar ao Imperador o general Foy, para lhe dar conta dos acontecimentos e lhe pedir instruções. O Sabugal esteve na rota deste general (de que falaremos mais tarde).
Outro comandante francês que passou pelo Sabugal foi o general Gardanne, que consta ter ali dormido uma noite. É precisamente da desventura deste general na terceira invasão que iremos seguidamente falar.
Charles Mathieu Gardanne, nasceu em Marselha em 1766. Entrou muito novo para o exército, tendo sido promovido a tenente de cavalaria aos 26 anos e a capitão um ano depois. Comandou esquadrões e regimentos de cavalaria, tendo-se notabilizado em combate. O seu alto mérito militar levou-o a ser chamado para ajudante-de-campo de Napoleão Bonaparte.
Para além de militar distinguiu-se como diplomata, ao ser enviado por Napoleão ao Irão, em 1807, como ministro plenipotenciário, para pedir o apoio do Xá da Pérsia à causa da França contra a Rússia e a Inglaterra. Após a missão diplomática o general retornou a França, em 1809, e o Imperador concedeu-lhe o título de conde do Império. De seguida enviou-o, como general de Brigada, para Espanha. Aí integrou o 9º corpo do exército francês, comandado pelo General Drouet, conde d’Erlon, que, instalado em Salamanca, deu a Gardanne o comando de uma brigada que serviu de cabeça de coluna ao seu movimento em direcção a Portugal, a fim de apoiar o exército de Massena.
O general Foy, enviado por Massena a Paris, passou por Ciudad Rodrigo, onde se encontrou com Gardanne e lhe pediu que cumprisse quanto antes a missão de entrar em Portugal e se juntar às tropas franceses. Para tanto deixou-lhe como guia o capitão de engenharia Boucherat, que conhecia bem os caminhos de Portugal.
Gardanne entrou por Almeida, no dia 13 de Novembro, à frente de uma coluna com quatro mil homens, levando o general Silveira a levantar o cerco que as suas milícias faziam à praça, em poder dos franceses. Os invasores perseguiram as milícias e atacaram-nas perto de Pinhel, infligindo-lhe grandes baixas.
Mas como o propósito de Gardanne era ir ao encontro de Massena levando-lhe homens, cavalos e munições, procurou o caminho mais directo e seguiu a linha do Côa para montante, atingindo o Sabugal, onde se instalou. Arrancou desta vila raiana a 20 de Novembro, passando por Sortelha, Capinha, Fatela, Valverde, chegando ao Fundão no dia 22 de Novembro. Nas imediações do Fundão foi alvo de emboscadas por parte das milícias de Trant, que atacaram constantemente a coluna, provocando-lhe baixas. Gardanne continuou porém a sua rota para sul, seguindo em marchas rápidas por um território extremamente hostil, infestado de milícias e ordenanças portuguesas que o atacavam a todo o instante.
A 25 de Novembro, estava em Cardigos, a um dia de Punhete (Constância). A 26 avançou nessa direcção para entrar em contacto com os postos franceses que ocupavam a margem esquerda do rio Zêzere. Porém, já a pouca distância destes recebeu informações por parte de um alegado espião francês, que lhe indicou que a ponte sobre o Zêzere estava destruída e os franceses tinham retirado, sendo vigorosamente perseguidos pelos ingleses.
Estas informações, que eram totalmente falsas, provocaram o pânico em Gardanne, que pensou estar prestar a cair numa armadilha e retirou de forma precipitada e desorganizada, vivendo então uma aventura dramática, deixando para trás muitos soldados. A 29 de Novembro estava em Penamacor, de onde enviou emissários ao general Drouet, indicando-lhe que retirava. Foi com a sua brigada completamente extenuada e em estado deplorável que Gardanne voltou a passar no Sabugal e Alfaiates, com a pressa de atingir a fronteira e juntar-se às restantes tropas do 9º corpo.
Já em Espanha o general Drouet juntou a coluna recém-chegada à sua primeira divisão, cujo comando entregou a Gardanne, que voltou a avançar para Portugal por Celorico e ponte de Mucela, atingindo a 26 de Dezembro, o exército de Massena.
A reputação de Gardanne nunca mais seria a mesma, o fracasso da sua primeira manobra em Portugal e as circunstâncias caricatas da sua retirada, quando estava a poucos quilómetros das linhas franceses, foram motivo de troça por parte de franceses e aliados, assim se desprestigiando um general que já dera noutras ocasiões provas de valentia e de sabedoria.
Paulo Leitão Batista

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