O espião que trabalhava para o exército britânico atinge a cidade da Guarda, onde tem uma curiosa conversa com Trant, que lhe dá a entender ter em mente um plano de acção para fazer frente ao marechal Marmont (duque de Ragusa), que se instalara no Sabugal.

Manuel, o espião, chegado à Guarda, encontrou-se com o general Trant a quem entregou um relatório. Descreveu o general inglês como um militar galante e inteligente, mas por vezes muito pouco perspicaz. Dias antes ajudara com as suas milicias o governador de Almeida a evitar a tomada da praça pelos franceses e estava convencido de que era capaz de ir mais longe.
Citemos esta passagem do livro com o curioso diálogo estabelecido (em tradução livre):
Trant questionou-me acerca do quartel-general francês instalado no Sabugal. Ele conhecia bem essa vila, talvez até melhor do que eu. Disse-lhe que os franceses estavam na margem do Côa e que Marmont tinha lá o seu quartel-general, mas desconhecia em que casa ou em que parte da vila.
“Mas não pode voltar lá e descobrir?”; perguntou-me.
“Como quiser”, respondi-lhe, “faço o que me ordenar”.
“Mas isso comporta riscos”, disse-me.
“Seguramente”, respondi-lhe, “mas o risco faz parte do meu dia-a-dia, pelo que procuro encontrar caminhos seguros”.
“Desculpe”, disse ele esboçando um sorriso, “mas eu não estava a pensar em si, ou pelo menos unicamente em si”. E notei pela sua expressão que planeava algo.
“Rogo-lhe que não pense em mim”, disse-lhe simplesmente. (…).
“Veja”, disse ele, “o duque de Ragusa é um homem galante”.
“Notoriamente”, disse-lhe, “toda a Europa sabe isso e ele próprio também o sabe”.
“Ouvi dizer que as suas tropas lhe admiram a auto-estima”
“Bem”, disse eu, “ele monta galhardamente e é corajoso. Começa porém agora a cometer os seus erros, e os soldados, tal como as mulheres, sabem bem o que um guerreiro deve parecer”.
“Na verdade,” disse o General Trant, “a sua perda faria toda a diferença.”
Pedira-me para ficar sentado e servia-me um copo de vinho. Mas as suas palavras fizeram-me pular de repente, o que fez tremer a mesa e derramar metade do conteúdo do copo.
“O que o diabo está errado?” perguntou o general, tirando um mapa do caminho do vinho. “Meu Deus, homem! Não pense que lhe pedia para assassinar Marmont!”
“Peço-lhe perdão”, disse eu, recuperando. “Claro que não disse isso, mas parecia…”
“Oh, parecia?” E enxugou o mapa com o lenço das mãos, olhando-me como quem diz: “Acho que parecia.”
Fiquei algo desconcertado. “Este homem não pode querer que o sequestre!” pensei.

Na verdade, Trant tinha em mente um plano para atacar Marmont no Sabugal, por saber que o grosso das suas tropas tinham seguido na direcção de Castelo Branco, mantendo junto de si apenas um pequeno contingente. Contava para isso com o reforço das milícias de Wilson e de Bacelar, aos quais tinha pedido para se lhe juntarem na Guarda.
Trant acabaria por enviar o espião ao Sabugal para que o mesmo lhe trouxesse informações mais precisas. Conhecia um barbeiro que tinha casa no Sabugal e que fugira para casa de um irmão em Belmonte. Manuel teria que ir ao Sabugal fazendo-se passar por esse barbeiro-cirurgião, simulando o seu regresso e o reinício da actividade.
(Continua)
Paulo Leitão Batista

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