Primeiras três cenas da peça Riba-Côa.

João Valente - Arroz com Todos - Capeia ArraianaEm três actos

A cena é em Riba-Côa, Sabugal, Largo do Castelo e seu interior

Acto primeiro

Cena I
REI, ALFERES, ESCUDEIRO, GENTE.

Largo do Castelo, com feira franca.
(Rei D. Dinis, chegando pela rua principal à frente de uma hoste armada)
REI (apeando-se) – Fazer-me esta afronta, não é de bom fidalgo.
ALFERES – prendamo-lo, senhor.
REI – Assim seja. Prendei o traidor.
ALFERES – Não temais, senhor.
REI – Já estou, amigos, em lugar seguro. Que Deus seja o juiz desta nossa boa causa.

(Param junto ao cruzeiro.)

ALFERES – Sancho, hoje acabará o teu jogo duplo.
ESCUDEIRO – Senhor, os Leoneses fecharam-se dentro.
REI – Pela fé nesta santa cruz (benze-se, à sombra do cruzeiro), este traidor e sua mãe provarão hoje o fio da minha espada. Arrombai o portão!
ALFERES – O portão é grosso, senhor; chapeado a ferro. Não irá abaixo facilmente. E da torre os leoneses podem atacar-nos, senhor.
REI – Trazei as escadas e subi às muralhas! Nenhum rei de Portugal sofre injúrias de Leão ou de Castela.

Cena II
ALFERES, GUTERRES, AFONSO, PAIO, FROILAN, RODRIGO, SISNANDO, GENTE.

GUTERRES – Não levamos gente?
ALFERES – Nós bastamos para reparar a afronta ao nosso bom amo D. Diniz.
GUTERRES – Este é fidalgo da casa real; criado de el-rei.
AFONSO – Sempre pus a minha espada e dos meus homens ao serviço do meu rei. Acudam, aquí, Paio, Froilan; aqui, Rodrigo! Siinando as escadas! Morte aos traidores, viva o rei!

(Sobem às muralhas. Lutam; os amotinados fogem.)

PAIO – Já fogem!
FROILAN – Pelas relíquias de S.Teotónio; não ficará nenhum vivo!
SISNANDOS – Vejam, que já lá vem nosso bom rei D. Dinis.
ALFERES – Oh fidalgos! Que nenhum falte a beijar-lhe as mãos, de tanta glória e generosidade ele é prendado!

Cena III
REI, GUTERRES, AFONSO, PAIO, FROILAN, RODRIGO, SISNANDO

REI – Levantai-vos, amigos (erguendo-os), pois fizestes-me hoje um grande serviço.
GUTERRES – Senhor, quanto nos honras. Aqueles homens são traidores, mas como podiam ser leais se o não foram os seus senhores? Todos os que vedes aqui (e aponta os companheiros) são aqueles beirões, cujos avós ajudaram os vosso avós a ganhar a terra de Portugal; Estes entraram convosco até Saragoça, a sustentar o partido do infante D. João ao trono de Leão. Os donatários desta terra ao romperem a aliança convosco nesta causa, são traidores, meu senhor.
REI – Com tão nobre defensor não há traição que me vença. Que Deus vos pague, Dom cavaleiro.
GUTERRES – Beijo-vos pelo Dom a mão, e o pé também. Faça-vos Deus, rei bondoso, tão temido e obedecido, que seja o vosso reinado o mais glorioso do mundo e que, para maior glória vossa e proveito do reino, flutuem os vossos estandartes em toda as vilas desta comarca, do Côa até ao Àgueda, em castigo da traição que vos fizeram e compensação das despesas com esta guerra.
REI – O conselho que me dais vô-lo compensarei bem; que vos darei, Dom cavaleiro, quinhentos maravedis de renda para o vosso jantar.
GUTIERRES – E eu bejo-vos os pés.
REI – A Afonso, fidalgo de minha casa, soldo a dobrar lhe darei.
GUTERRES – Leal fidalgo é.
AFONSO – O céu vos dê longa vida.
GUTERRES – Vamos; que quero festejar.
AFONSO – Hoje vos há-de ver Leão com a glória acrescentada, porque mostrareis a quem vos traiu o castigo da sua traição.
GUTERRES – Como ao corpo os sentidos, são ao governo os nervos, o castigar os sobervos e o perdoar aos humildes. Tomemos os nossos caval0os e a festa que comece. Viva D. Dinis!
OS OUTROS – Viva!
REI – Que Deus vos guarde, meus vassalos.
(Vão-se.)
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

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