O homem para subsistir, tem de ter acesso a um bem essencial: a água. Emprega-se na alimentação, na rega, em banhos, lavagens de roupas e de louças, tendo ainda utilização medicinal e entrada em rituais. Nas cidades e aldeias o chafariz constituiu um equipamento primordial para o bem-estar da população.

Chafariz no Largo do Castelo - SabugalO uso virtuoso da água é bem notório no nosso adagiário popular:
Quem não poupa água nem lenha, não poupa nada que tenha;
Água em cestinho, amor de menino;
Se tens vento e depois água, deixa andar que não faz mágoa;
A água de Janeiro vale dinheiro;
A água lava tudo, só não lava as más línguas;
Água de Agosto, mel e mosto;
Água e lenha, cada dia venha;
Água o deu, água o levou;
Água que não hás-de beber, deixa correr;
Bendita seja a água, por sã e barata.

Interessa aqui rever como se obtinha nos dias de antanho a linfa que abastecia as aldeias, num tempo em que o mimo da torneia a correr dentro das habitações ainda vinha longe. A água nativa estava disponível nas fontes naturais, nos rios, ribeiras e lagoas. Havendo porém que a captar quando dela havia maior necessidade, o camponês teve que se dispor a fossar a terra, na ânsia de dar com os veios subterrâneos. Aqui intervinha o vedor, que, de varinha advinhatória nas mãos, indicava o ponto onde se deveria escavar.
A aldeia, para ser devidamente abastecida, tinha ao dispor a água de poços e de fontes. Dentro das fontes, o mais comum eram as de chafurdo, de mergulho ou de charco, que funcionavam a modos de cisterna. Coisa mais fina e de maior garantia higiénica eram os pios, onde a água brotava em bica, correndo por um cano ou, na sua falta, uma cana ou uma telha. Também aqui era maior a comodidade, pois facilmente se enchia o balde ou o cântaro. Bastas vezes as fontes tomaram a forma de chafarizes, alguns com graciosas formas, facto que em muito orgulhava os habitantes das terras.
Localidade onde abundassem os chafarizes era considerada terra grada, de avultada importância, significando muitas vezes também que um seu natural assumira cargo influente, que lhe permitia “puxar” pela terra. Havendo uma captação, a água seguia canalizada para a fonte, onde corria, do alto, para um tanque. O povo apulava a que queria para consumo doméstico e servia-se do tanque para dessedentar os animais. Por vezes o tanque passou também a lavadoiro, facto que inviabilizava o consumo da água pelos animais. Por isso se construíram depois lavadoiros públicos, com água encaminhada para a finalidade exclusiva de lavar as roupas.
Ora, se na maior parte dos chafarizes impera e simplicidade, onde a norma é somente a prática, outros há de especial graciosidade, que são, afinal, elementos patrimoniais de referência no meio aldeão. Geralmente o chafariz compõem-se de um tanque encostado a um muro de pedra, encimado com uma cruz ou uma pirâmide. A água cai de um cano de ferro, havendo muitos com cano ou cale em pedra. Em alguns casos, mais peculiares, a água cai mesmo de uma gárgula de pedra que tem insculpida uma figura.
Paulo Leitão Batista

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