Torcicolo é uma ave da família dos pica-paus que tem a capacidade de conseguir virar o pescoço 180 graus.

João Aristides Duarte - «Memória, Memórias...»Os alemães de Leste começaram a usar esta palavra (em alemão Wendehal) para definirem os políticos que conseguiram mudar para a direita do espectro político, após a queda do Muro de Berlim, apesar de estarem colocados em altos postos de responsabilidade no regime, conseguindo com isso serem perdoados e passarem a gozar de reputação de grandes democratas. O caso mais flagrante é o de Günter Schabowski, o homem que era o porta-voz do regime no próprio dia da abertura das portas do muro. Ele enganou-se numa conferência de imprensa transmitida pela televisão, no dia 9 de Novembro de 1989, anunciando a abertura das portas imediatamente, quando estava acertado que seria no dia seguinte. Só por isso ficou na história.
Mas por cá, por este cantinho à beira-mar plantado, também há muitos, muitos «torcicolos».
Os mais famosos são, com certeza, os do PS, que já viraram tantas vezes o pescoço 180 graus (e sempre para a direita), que não devem ter já para onde o virar.
João DuarteChamem-me «radical» ou o que quiserem, mas não posso deixar de referir-me a uma canção de um disco editado pelo PS, em 1974 (capa na imagem), com música de Arlindo de Carvalho (o autor do famoso «Chapéu Preto», que ao contrário do que se pensa não é uma canção tradicional). A letra é de João Dias e o disco, de vinil (sim, eu ainda tenho gira-discos para ouvir destas preciosidades) foi editado oficialmente pelo PS. Comprei-o num site de leilões da Internet e custou-me 10 euros (um disco destes em 1974 custaria 30 escudos). Não são os autores da música e da letra que estão em causa, mas sim o próprio PS.
A letra da canção (intitulada «Camponês, a terra é tua») reza o seguinte:
Camponês, a terra é tua, não a queiras ver roubada
O teu corpo foi charrua
Por teu sangue foi regada
Nossa terra, nosso amor, generosa mãe imensa
Se lhes dás sangue e suor é justo que lhe pertença
A terra, a terra, é de quem a trabalha
É o pão, irmão, na mão de quem o ganha
Abaixo, abaixo, morgados e senhores
A terra, a terra para os agricultores/
É teu o campo lavrado, por direito de razão
O teu braço foi arado, acabou-se a servidão (…)

Se alguém ouvir esta canção ou ler a letra, sem saber que se trata de uma canção oficial do PS, pensará que se trata de alguma canção feita por pró-albaneses, seguidores de Enver Hoxha (do PCP (m-l), da FEC (m-l), da UDP ou do MRPP). No entanto foi o PS que tudo fez para que a tal terra que estava inculta assim continuasse, logo em 1976. Mandou toda a letra da canção às urtigas.
Pois é, caro leitor, o PS não tem qualquer problema em dizer uma coisa para logo a seguir dizer, exactamente, o seu contrário. Contrariamente ao que disse António José Seguro há uma semana, o PS há muito que deixou de ter qualquer matriz (ideológica ou de qualquer outra natureza). É um partido completamente gémeo do PSD. O programa de TV «Contra-Informação» (que está prestes a terminar) não encontrou melhor boneco para Passos Coelho (que já não dava tempo para construir) do que o próprio boneco do Sócrates. Bastou colocar uma cabeleira nova e o Sócrates passou a ser o Passos Coelho.
Recentemente Edmundo Pedro (um histórico do PS e ex-tarrafalista) referiu numa entrevista que Sócrates poderia bem ser do PSD, até porque foi nesse partido que se iniciou. E alguém tem alguma dúvida?
Há bem pouco tempo o PS defendia com «unhas e dentes» o Código do Trabalho em vigor (aliás já objecto de revisão pelo Governo PS em 2009), referindo que não se devia mexer nele. Hoje, seguindo as directivas dos (seus) patrões de Bruxelas quer mudar o Código do Trabalho. Se isto não é ser «torcicolo», é ser o quê?
Bem se sabe que, quando o PS disser que isto ou aquilo não é para mudar quer dizer (para bom entendedor) que estará eminente a sua mudança.
Cavaco Silva que, agora se pronuncia sobre quase tudo (quando há pouco tempo «não se podia pronunciar») disse sobre a revisão do Código do Trabalho, pretendida pelo Governo que «não se pode pronunciar». Claro que não pode, se todos os que defendem a revisão, tal como os presidentes das confederações patronais; são apoiantes da sua candidatura! No entanto, quando o caso toca aos Açores já se pode pronunciar sobre tudo e mais alguma coisa (lembro-me bem de quando Cavaco fez parar o país por causa de uma comunicação sobre o Estatuto dos Açores, que ninguém percebeu).
Apesar de tudo, com Cavaco já se sabe com o que se conta, com o PS de Sócrates é que convém estar sempre de pé atrás. Pedir votos para fazer uma política de Esquerda (mesmo que “moderna”) e essa política ser igual à da «velha» Direita é que só mesmo os sectários do PS conseguem entender. E ainda por cima têm o descaramento de falar em «voto útil». Útil para quem?
E se falo em sectários é para comparar com aqueles que têm a fama de o ser. Helena Neves, numa entrevista à revista «Visão», em Junho deste ano, refere que quando saiu do PCP leu uma carta no Comité Central e abandonou o partido. Álvaro Cunhal foi a uma consulta de oftalmologia e Helena Neves também estava lá. Ela pensou que Cunhal nunca mais lhe falaria. Pois não só lhe falou como a abraçou e beijou a ela e à sua filha. Mais tarde, telefonou a Helena Neves a dar-lhe os parabéns quando esta terminou o mestrado. E enviou-lhe, até, um telegrama.
Já Mário Soares tem dito, embora subrepticiamente, «cobras e lagartos» de Manuel Alegre que nem sequer saiu do PS. E tudo faz para que Cavaco ganhe as eleições presidenciais, só para não ser Alegre a ter essa vitória. Assim se vê a grandeza de certos homens, tidos como exemplo de grandes democratas, mas que não passam de uns pobres «torcicolos».
Nota: Já agora (e puxando um pouco a brasa à minha sardinha) fica como nota antológica a réplica de Sócrates à deputada Heloísa Apolónia, a propósito dos professores: «É uma competição um bocadinho ridícula as bancadas entreterem-se a ver quem é que elogia mais os professores.»
Pergunto eu: Quem é que Sócrates elogia? Os «mercados»? Ou as agências de «rating»?
«Política, Políticas…», opinião de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

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