Vindo de Espanha, «Cela 211» é um filme sobre prisões que aborda muito mais do que a simples vida atrás das grades.

Pedro Miguel Fernandes - Série B - Capeia ArraianaNa sua quarta longa-metragem como realizador Daniel Monzón leva-nos a uma prisão onde está prestes a iniciar um motim liderado por Malamadre, um grande vilão, que ficará como um dos grandes personagens do ano, interpretado por Luis Tosar. Ao mesmo tempo a narrativa apanha pelo meio Juan Oliver (o estreante Alberto Ammann), um novo guarda prisional que resolve visitar o seu posto de trabalho na véspera de entrar ao serviço e acaba por ficar do lado errado da prisão.
O que vamos assistindo é a infiltração de Juan Oliver no meio dos presos, onde se faz passar por um deles para não sofrer as consequências de ser uma presa fácil, e a sua evolução que resulta do desespero das notícias que lhe vão chegando do lado de fora. E o que inicialmente parecia ser um jovem tímido ansioso por conhecer os cantos à casa começa a tornar-se outra pessoa, mais vingativa, fruto do meio onde está inserido que o leva a praticar acções necessárias para a sua sobrevivência.
Cela 211Mas além desta evolução, «Cela 211» foca também muitas questões relacionadas com a vida nas prisões e os problemas neste tipo de sítios, que são apontados na lista de pedidos dos amotinados. O filme aborda ainda a forma como os prisioneiros bascos são vistos no meio prisional espanhol: tanto os presos como as autoridades os desprezam, devido às suas ligações ao terrorismo da ETA, (o sentimento é igual na outra parte) mas os três bascos acabam por ser fundamentais para as negociações em curso.
«Cela 211» é um filme forte (a cena inicial de um prisioneiro a cortar os pulsos diz-nos logo ao que vamos) que apesar de ser passado numa prisão acaba por não cair nos clichés do género. A prisão onde decorre maior parte da acção não é um espaço claustrofóbico, pelo menos isso não se sente, e Daniel Monzón conseguiu filmar bem a história, mesmo nas cenas mais movimentadas, onde tudo parece estar no sítio certo.
«Série B», opinião de Pedro Miguel Fernandes

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