No dia 12 de Setembro do ano de 1960 a população de Foios, ao acordar, teve conhecimento de uma triste notícia. O João Marques Gomes, natural do Soito, havia sido assassinado, nessa noite, quando regressava a casa, em cima de um cavalo, depois de ter, com muitos outros colegas, transportado os cento e vinte quilos de «minério», como por cá se dizia.

José Manuel Campos - Nascente do CôaEu tinha treze anos e recordo-me como se tivesse acontecido há um mês.
Toda a população de Foios, profundamente revoltada, comentava tão triste acontecimento. Nessa altura poucas pessoas havia que não fizessem contrabando. Já que mais não fosse fazia-se o contrabando da subsistência. Os caminhos e as veredas, para Valverde, faziam lembrar os carreiros das formigas.
Umas pessoas faziam o contrabando de dia e outras trabalhavam mais de noite. O malogrado João Marques Gomes, na zona também conhecido pelo João Moquinho, ao ter sido atingido por um tiro, caiu no regato do sítio designado por Estercadinha e ali ficaram dois ou três guardas fiscais a guardar o corpo até que viesse o delegado de saúde.
Passado algum tempo o corpo do João foi transportado para as eiras tendo ficado debaixo de um castanheiro, coberto por um lençol, à espera que chegasse a família que se deslocou, a pé, do Soito até aos Foios.
Eu e mais alguns garotos, cheios de curiosidade e algum medo, subimos para o castanheiro e, como uns gatos, deslocámo-nos por uma forte pernada até ficarmos mesmo por cima do cadáver.
A mãe do falecido João, acompanhada de mais familiares e amigos, ouvia-se a gritar a um ou dois quilómetros de distância.
João Marques GomesQuando entrou nas eiras e encarou com as fardas dos guardas fiscais ficou completamente perdida. Numa gritaria infernal tentava alcança-los o que não virai a acontecer porque as pessoas não o permitiram.
Dirigiu-se então para junto do corpo do filho onde muita gente se encontrava. As pessoas abriram alas e eis que a mãe alcança o corpo do filho. Ajoelhou-se e deitou-se, derrepentemente, sobre o corpo numa gritaria e numa dor que contagiou toda a gente. Todas as pessoas choravam e muitas gritavam palavras de profunda revolta.
Dei conta da mãe ter levantado a camisola do filho e quando se apercebeu por onde tinha entrado ou saído a bala – ou as balas – quase o comia com beijos. A dor daquela mãe contagiou todos os presentes. Todos chorámos o João.
Mais tarde, a família mandou colocar, uma pedra, de granito, no local do crime mas, este ano, depois da pedra bem limpa foi colada uma outra com os dados do falecido.
Ontem desloquei-me ao local, fiz um minuto de silêncio e verifiquei os trabalhos levados a efeito pela família. Fiquei feliz. Tirei umas fotos, fiz umas contas e decidi escrever este simples artigo em homenagem a um homem que foi abatido como um coelho quando procurava ganhar o sustento para uma casa de gente pobre como, aliás, éramos todos.
Descansa em Paz, João.
«Nascente do Côa», opinião de José Manuel Campos

(Presidente da Junta de Freguesia de Foios)
jmncampos@gmail.com

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