Comentando há tempos com um cliente a eleição de um novo presidente da câmara no seu concelho e a minha fé na mudança das políticas camarárias, retorquiu-me ele que era apenas uma questão de «ementa»; os novos eleitos apenas deixaram de comer na tasca do mercado, passando a frequentar o restaurante mais fino da cidade, e o antigo poder fez o percurso inverso, regressando à tasca do mercado.

João Valente - Arroz com Todos - Capeia ArraianaFoi uma resposta desconcertante, mas porque sou frequentador ocasional dos dois locais, pude constatar, algum tempo depois, o acerto de tal diagnóstico.
De facto, as decisões humanas sempre foram governadas pelo funcionamento intestinal, mudando o poder apenas o preço e o requinte da ementa do que os políticos comem.
Já estou a imaginar o caro leitor, senão incrédulo, pelo menos de «pé atrás» com o insólito de tal afirmação.
Mas de insólito esta nada tem. É a boca que governa o mundo!
Com efeito, já Voltaire defendia esta tese, ainda que de forma mais elaborada, acentuando não o papel da boca, mas da digestão nas decisões políticas, quando pôs o anatomista Sidrac in «Os ouvidos do conde Chesterfield e o capelão Goudman», a dizer que «todos os negócios deste mundo dependem da opinião e da vontade de um principal personagem, seja o rei, ou o primeiro-ministro, ou alto funcionário. Ora, essa opinião e essa vontade são o efeito imediato da maneira como os espíritos animais se filtram no cérebro e daí até a medula alongada; esses espíritos animais dependem da circulação do sangue; esse sangue depende da formação do quilo; esse quilo elabora-se na rede do mesentério; esse mesentério acha-se ligado aos intestinos por filamentos muito delgados; esses intestinos, se assim me é permitido dizer, estão cheios de merda».
– Que acontece então a um homem com prisão de ventre? – filosofava Siderac – Os elementos mais tênues, mais delicados da sua merda, se misturam ao quilo nas veias de Asellius, vão à veia-porta e ao reservatório de Pecquet; passam para a subclávia; penetram no coração do homem mais galante, da mulher mais faceira.
É uma orvalhada de bosta que se lhe espalha por todo o corpo. Se esse orvalho inunda os parênquimas, os vasos e as glândulas de um atrabiliário, o seu mau-humor transforma-se em ferocidade; o branco de seus olhos se torna de um sombrio ardente; seus lábios colam-se um ao outro; a cor do rosto assume tonalidades baças. Ele parece que vos ameaça; não vos aproximeis; e, se for um ministro de Estado, guardai-vos de lhe apresentar um requerimento. Todo e qualquer papel, ele só o considera como um recurso de que bem desejaria lançar mão, segundo o antigo e abominável costume dos europeus. Informai-vos habilmente de seu criado se Sua Senhoria foi aos pés pela manhã.
Isto é mais importante do que se julga. A prisão de ventre tem produzido às vezes as mais sanguinolentas cenas. Meu avô, que morreu centenário, era boticário de Cromwell; contou-me muitas vezes que fazia oito dias que Cromwell não ia à privada quando mandou degolar o seu rei.»
E comprova a sua tese, Siderac, com os seguintes exemplos:
«Todas as pessoas um pouco a par dos negócios do continente sabem que o duque de Guise foi várias vezes avisado de que não incomodasse a Henrique III no inverno, enquanto estivesse soprando o nordeste. Em tal época, era com extrema dificuldade que o referido monarca satisfazia as suas necessidades naturais. Suas matérias lhe subiam à cabeça; era capaz, então, de todas as violências.
O duque de Guise não levou a sério tão avisado conselho. Que lhe aconteceu? Seu irmão e ele foram assassinados.
Carlos IX, seu predecessor, era o homem mais entupido do reino. Tão obstruídos estavam os condutos de seu cólon e de seu reto, que por fim o sangue lhe jorrou pelos poros.
Bem se sabe que esse temperamento adusto foi uma das causas da matança de S. Bartolomeu.
Pelo contrário, as pessoas que têm bom aspecto, as entranhas aveludadas, o colédoco fluente, o movimento peristáltico fácil e regular, que todas as manhãs, depois de comer, se desobrigam de uma boa evacuação, tão facilmente como os outros cospem; essas pessoas favoritas da natureza são brandas, afáveis, graciosas, benevolentes, serviçais. Um não na sua boca tem mais graça do que um sim na boca de um entupido.
Tal é o domínio da privada, que uma soltura torna muita vez um homem pusilânime. A disenteria tira a coragem. Não convideis um homem enfraquecido pela insónia, por uma febre lenta, e por cinquenta dejecções pútridas, para atacar um posto inimigo em pleno dia.
Eis por que não posso acreditar que todo o nosso exército estivesse com disenteria na batalha de Azincourt, como dizem, e que alcançou a vitória de calças na mão. Alguns soldados teriam ficado com soltura por haverem abusado de maus vinhos no caminho; e os historiadores teriam dito que todo o exército, enfermo, se bateu de bunda de fora, e que, para não mostrá-la aos peralvilhos franceses, bateu-os redondamente, segundo a expressão do jesuíta Daniel. E eis justamente como se escreve a História.»

Meus amigos, a boa e má política dependem do bom funcionamento da tripa e da vesícula de quem nos governa.
Uns exemplos para que percebam:
O Ricardo apresentava um ar de icterícia persistente, indício de problema de vesícula e de mau funcionamento da tripa.
O Tony, parecendo o mais escorreito, tinha o problema de saúde que toda a gente sabe e que logo adivinhei; resolvido o problema, o novo cargo que provavelmente vai assumir (por favor não perguntem qual; ficam a saber tanto como eu) será um bom teste à vesícula para daqui a três anos.
O Robalo tendo boa cor, sofre de inchaço da barriga, tal como eu, o que indicia digestões difíceis e morosas. Fará bom mandato, dependendo de como refrear o apetite e seleccionar a dieta dele e dos que lhe estão próximos.
Daí a minha indecisão no apoio a qualquer um.
É que, à falta de melhor critério, quando tenho de escolher um político decido sempre, segundo a teoria de Voltaire, em função da vesícula dos candidatos. Têm pele macilenta, ar enjoado, inchaço da barriga, cólicas, irritabilidade? Não voto. Têm boa cor, boa forma física, serenidade? Voto.
O problema é que, não sendo médico, e tratando-se a politica de uma ciência inexacta, às vezes engano-me.
Também não tinha à vontade para chegar ao Ricardo ao Tony e Robalo e confrontá-los com a pergunta:
– O candidato vai regularmente à privada?
Isso são coisas no segredo dos deuses e da intimidade de cada um, como percebem… Por isso é que os políticos são como os melões. Só abrindo-os é que sabemos se estão maduros! E algumas vezes enfiamos o barrete…
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

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