O povo da raia sabugalense designava por «graminês» o vinho de produção local, ou seja, o chamado vinho do lavrador, colhido na vinha, fermentado no lagar e guardado na adega.

«No fim de cada eirada tinham direito a um copo de graminês», escreveu Manuel Leal Freire, no livro Ribacoa em Contraluz, quando descrevia as malhas que antigamente juntavam dezenas de homens de manguais em punho, sovando o cereal sob o calor tórrido de Julho.
O termo não é porém exclusivo do concelho do Sabugal, sendo antes uma expressão do léxico regional, pois já em 1912 o recolhera A. Gomes Ferreira, colocando-o no seu Vocabulário da Guarda com a significação: «vinho fresco para uso da casa».
Ora tem-se falado por aí do vinho graminês, que aliás na semana passada foi rei na Rebolosa, onde regou a goela dos que foram feirar à Santa Catarina e tirar a licença para matar o marrano.
No próximo sábado, dia 4 de Dezembro, o vinho graminês voltará a ser rei em Ruivós, onde restam vários produtores locais que mantêm viva a tradição do trato das vinhas e da consequente produção de vinho. A «Rota das Adegas» levará os convivas, de cacharro de alumínio ao pescoço, a correr as lojas da aldeia onde o graminês jorrará dos pipos e das cubas.
Nos dias de hoje tratar uma vinha é já coisa rara, própria de quem não desiste de defender a tradição. Mas noutro tempo todos cuidavam as videiras com esmero, e vindimavam-nas nos primeiros dias de Outubro, numa jornada de trabalho comunal. Os «gachos» eram transportados em cestos de vime para a dorna assente no chedeiro do carro das vacas. Dali iam para o lagar, onde eram pisados e depois sucessivamente remexidos até fermentar. Já bem fervido o vinho era separado do engaço e transferido para as pipas, onde continuava a fermentação. O engaço era ainda espremido pela prensa, numa operação chamada o «pé», pela qual se aproveitava todo o néctar.
Em dia de são Martinho ia-se à adega de «pichel», ou «pichorro», em punho para se retirar o primeiro briol da pipa. Era a prova, para a qual era uso convidar os amigos. «Tomas uma pinga?», perguntava-se aos que passavam, mostrando-se a devida franqueza.
Depois de «desbobrar» (assentar e aclarar), o vinho estava pronto a ser consumido em barda. Porém, chegada a primavera, submetia-se a uma operação delicada, que era obra de quem sabia: a «estrafega». Tratava-se de transferir o vinho de uma pipa para outra, livrando-o da «borra», ou «sarro».
Com os calores do verão o vinho «desvanecia», perdendo o vigor e avinagrando. Mas o ciclo estava prestes a recomeçar pois as uvas já «pintavam» e a nova vindima era próxima.
O vinho dessedentava e dava força, mas também tinha, se consumido em excesso, consequências nefastas para a saúde individual e para a vida social.
Era também usado na produção alimentícia, desde logo na confecção da «migada», que era uma sopa de pão centeio amolecido com vinho. No verão era a alegria do lavrador e do cavador e até as mulheres se consolavam com o famoso gaspacho, onde se misturava com pão e água fresca para matar a sede. No tempo das malhas era uso começar o dia bebendo uma «gemada», que era um batido feito com vinho, água, ovos e açúcar, tido por bebida revigorante.
O jovem apenas saia à rua da sua aldeia quando pagasse o vinho à confraria dos solteiros, numa espécie de provação ou ritual iniciático a que tinha que se sujeitar. Só aí adquiria o estatuto de «solteiro», o que levava a família dizer com orgulho: «O nosso Zé já é rapaz solteiro». Então, sim, pago o graminês aos amigos, o novo rapaz solteiro já podia circular pelas ruas até altas horas da noite, entrar nos serões, participar nas rusgas e nas romagens nocturnas às aldeias vizinhas.
Quando se fazia um negócio, lá vinha o «albroque», em que os protagonistas e as testemunhas molhavam a goela na adega mais próxima. O mesmo sucedia na «molhadura», que era o acto de beber graminês à conta de quem exibia fato novo. E ainda havia a «patenta», que era o tributo em graminês daquele que ia namorar em terra alheia.
O graminês era pois o vinho bom que se produzia no lagar e que contrastava com o que vinho da taberna, vindo muitas vezes de longe. Ao vinho reles davam-se por sua vez outros nomes, como zurpa, zurrapa ou morraça, querendo contrapô-lo com o bom graminês que estava em cada adega.
Paulo Leitão Batista

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