Não ficava de consciência tranquila e seria incoerente se não tivesse aderido à Greve Geral que decorreu, no nosso país, em 24 de Novembro. Efectivamente, sendo eu um crítico, desde o início, do Governo de José Sócrates, não poderia deixar de continuar a pensar da mesma maneira.

Greve Geral Portugal

João Aristídes Duarte - «Política, Políticas...»Bem sei que, agora, já há muitos críticos do Governo, mas também sei o que eu tive que enfrentar quando o Governo estava «em estado de graça», sobretudo aquando do seu vergonhoso ataque à classe docente.
Independente da «guerra dos números» sobre a Greve Geral, o que é certo é que a mesma foi uma manifestação de grande descontentamento contra as injustiças, os cortes salariais e o aumento de impostos que agravarão a vida de muitos e muitos portugueses.
Para aqueles que afirmam que a Greve Geral só se sentiu na Função Pública, segue uma lista (não exaustiva) de várias empresas privadas onde a Greve Geral teve uma adesão significativa: Autoeuropa, Setenave, Lisnave, Valor Ambiente, Gráfica Sacavenense, Rodoviária Alentejo, Cimianto, St. Gobain, Electrofer, Atlantic Ferries, Ferfor, Construções Vilaça & Pereira, Confetil (têxtil), Bestoff, CelCat, Metal Sines, AP (química), Danone, Safires Services (limpeza), Vista Alegre, Recipneus, Soflusa, Rodoviária de Lisboa, Brisa, Sapa Portugal, EDP, Inapal, Metal, Christhian Dietz, Eurest e Climex.
A imagem que acompanha esta crónica é, também, um desafio aos que alegam que os aderentes à Greve Geral são funcionários públicos, somente. A fotografia foi tirada na entrada do «Call Center» da PT, no Areeiro, em Lisboa.
O descontentamento dos portugueses devia fazer pensar o Governo, não sei se o fará, mas, logo no dia a seguir à Greve Geral saiu uma sondagem que coloca o PSD à beira da maioria absoluta e o PS a subir um pouco. Não estranho esta reacção dos portugueses que, há pouco mais de um ano nem podiam ver a «velha» (como lhe chamavam os do PS) e, agora, acham que tudo mudou no PSD e Passos Coelho, que é «novo» já salvará Portugal. Bem se sabe, e só quem anda distraído não o saberá, que Passos Coelho é muito mais a favor de um modelo neo-liberal (e, portanto, mais propício a agravar a situação dos menos favorecidos) do que a «velha» (como lhe chamavam os do PS).
Os portugueses são assim mesmo: aquele que era o pior há um ano é elevado à categoria de «Salvador da Pátria» passados uns tempos.
Claro que os tais que ainda há menos de um ano estavam com Sócrates, agora são os primeiros a «abandonar o navio». Eu lembro-me bem (porque tenho memória, que parece faltar a muitos) que os banqueiros, os chefes do patronato e outros consideravam Sócrates o melhor. Hoje, um tal Ferraz da Costa, de um auto-denominado “Fórum Para a Competitividade” defende uma revisão da lei da greve, para que não se possam fazer estes protestos, quando há “crise”. Esse Ferraz é o mesmo que era presidente da CIP (o patrão dos patrões) que defendia o Governo de Sócrates há pouco tempo. Como já viram que Sócrates tem os dias contados, toca a apoiar os novos “senhores”.
Já Mário Soares, o tal que dizia aos jornais, em 30 de Março de 1985, que «dentro de cinco anos, Portugal será um país completamente diferente e melhor para todos (…) tudo o que é obsoleto na nossa indústria e agricultura terá de desaparecer, para dar lugar ao que é novo e dinâmico», veio criticar quem participou na Greve Geral perguntando se a mesma era para «animar a malta». Realmente, se pensarmos o que é, hoje, a agricultura portuguesa, Mário Soares enganou-se redondamente. Portugal importa mais de 70% das suas necessidades alimentares.
No Orçamento para 2011 foi rejeitada, com os votos contra do PS, PSD e CDS, uma proposta do PCP para que as mais-valias bolsistas fossem taxadas em 21,5% de IRS, a exemplo do que acontece com uma poupança de um reformado que tenha uma conta bancária. Ou seja, os jogadores na Bolsa continuam a pagar 20% de IRS, em 2011, sobre as mais-valias e os reformados (sempre na boca do Portas, do Coelho ou de Sócrates) pagam 21, 5% de IRS. Quem é amigo dos especuladores, quem é?
Só isto (fora tudo o resto) me levaria a participar na Greve Geral, porque acho uma tremenda injustiça.
Apetece-me terminar esta crónica com o que diziam, num programa da RTP, nos anos 80, os Agostinhos (da saudosa Ivone Silva e de Camilo de Oliveira): «Este país é um colosso, está tudo grosso, está tudo grosso!!»
«Política, Políticas…», opinião de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

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