A França viveu este fim-de-semana aquilo a que alguns órgãos de comunicação e oposição chamaram uma «fantochada ou palhaçada». Ao mesmo tempo, uma palhaçada prevista e anunciada há muito tempo.

Paulo AdãoComo tem sido hábito, os presidentes franceses, vão alterando as equipas governativas, consoante o avanço dos diferentes projectos eleitorais. Há quatro ou cinco meses atrás, já se falava nesta mudança, que muitos esperavam como uma alternativa ao actual sistema governativo que muita polémica tem gerado. Depois das semanas movimentadas dos últimos tempos, uma vez aprovada a lei sobre a idade das pensões, esperava-se de dia para dia esta mudança. Muito foi dito, e muito se escreveu, sobre os pretendentes ao lugar de primeiro-ministro, sobre os possiveis candidatos, não
faltando especulações sobre este ou aquele nome, sobre esta ou aquela pessoa.
François Fillon, primeiro ministro, já tinha apresentado a sua demissão em 2007, aquando das eleições legislativas e nessa altura tinha sido reconduzido na função que ocupava. Desta vez, até há bem poucos dias, poucos eram aqueles que apostavam na continuidade de Fillon, tendo o mesmo dado sinais de ter chegado ao final do seu mandato. Porém, na semana que antecedeu estas mudanças, o mesmo manifestou disponibilidade para continuar no lugar, conduzindo à termo, os diferentes projectos de reformas e mudanças previstos pelo actual presidente de República.
Com a previsão de uma fim de semana de mudanças, não foi grande a surpresa, quando na sexta-feira ao final do dia, o então primeiro-ministro, apresentou a demissão, em bloco do seu governo, ao presidente de República, a qual foi aceite. Foi no sábado que comaçaram as «surpresas», François Fillon, é nomeado primeiro-ministro e reconduzido nas suas funções habituais, deixando para trás
nomes que se anunciavam já, ocupantes dessa cadeira tão desejada. Como tarefa, (urgente) cabe-lhe encontrar e apresentar ao presidente da República, uma nova lista de colaboradores (ministros e secretários de Estado) para formarem novo governo.
Uma vez a lista apresentada cabe ao presidente da República aceitar e nomear oficialmente o novo governo. Se o governo precedente contava com 37 ministros, o novo conta apenas com 30. A antiga equipa governativa que tinha aberto portas à oposição, fechou agora, por completo essas portas fazendo parte do novo governo apenas as cores do partido presidencial, ou seja um governo de
direita, por vezes mesmo, acusado de extrema-direita. No novo governo, as caras novas são poucas ou nenhumas, houve muitas mudanças, mas apenas trocas de gabinetes ou secretários de Estado que são agora ministros. A novidade mais badalada é a chegada de um antigo peso da política francesa, Alain Jupé, actual presidente da Câmara de Bordéus, que fez parte dos governos de Chirac.
Tem a França, desde domingo passado, um novo governo, mas com caras velhas.
Desta «palhaçada», um novo governo ao qual 64 por cento dos franceses não fazem confiança nenhuma e 89 por cento que dizem que a política vai ser a mesma que existe desde a eleição deste presidente, não esperando alguma mudança significativa e desejada, segundo uma sondagem publicada esta manhã na imprensa francesa.
Curiosidades desta nova equipa: é a primeira vez que um casal (marido e mulher) fazem parte de um mesmo governo, (ministra da defesa e negócios estrangeiros com o ministro junto do primeiro-ministro, responsável das relações com o Parlamento); cinco dos trinta membros da equipa nasceram na mesma cidade – coincidência ou não –, aquela onde Sarkozi foi presidente da câmara.
Dos 30 elementos do novo governo, 12 são mulheres.
«Um lagarteiro em Paris», crónica de Paulo Adão

paulo.adao@free.fr