Os líderes do Partido Socialista, salvo honrosas excepções, os seus militantes, salvo honrosas excepções, e os seus simpatizantes, salvo honrosas excepções, transformaram a sua ideologia numa garrafa vazia, que se pode encher de qualquer conteúdo.

António EmidioNada admira portanto que muitos irão votar à direita nas presidenciais. O mesmo irá acontecer nas legislativas. Para mim não é novidade…
Vejamos: quem é o primeiro-ministro José Sócrates? Um homem sem ideais, para ele a política é contabilidade. Isto para a direita é a maneira normal de fazer política, para a esquerda significa catástrofe, aí a temos…
Como foi permitido a um primeiro-ministro socialista fazer uma política notoriamente de direita? A primeira razão, para mim, foi a falta de democracia interna do Partido Socialista, silenciaram-se as vozes críticas. Depois, o primeiro-ministro governou para ele e para quem o manteve no poder. Foi um homem que defendeu mais os interesses do partido e de uma minoria que o rodeou, do que o interesse público.
Estão agora a surgir vozes críticas dentro do próprio Partido Socialista, quem são? Que ideologia têm? Não sei. Espero é uma coisa, que sejam homens e mulheres imbuídos de ideais socialistas, porque fundamentalistas de mercado e socialistas de salão já chegam os muitos que temos. Querido leitor(a), Sócrates, foi e é um vendedor de fumo, incapaz de mudar seja o que seja, com ele à frente continuam as políticas neoliberais que farão desaparecer os serviços públicos, aumentar o fosso entre ricos e pobres, aumentar o desemprego e a precariedade laboral, entre outras coisas.
Mas nem tudo foi mau, este homem, ensinou-nos isto, pelo menos a mim, quando um partido político tem uma maioria absoluta, se quiser, pode exercer o poder com um rigor decisório idêntico aos partidos únicos, numa ditadura tanto de direita como de esquerda, sente-se com legitimidade democrática, toma decisões que os partidos únicos não se atreveriam com receio de revoltas populares (quem não se lembra de há uns anos atrás, nesta legislatura, andarmos numa roda-viva por causa das absurdas leis, da diarreia legislativa que do governo saíram, tudo debaixo de ameaças da polícia, das finanças, de coimas e ASAE?). Outra coisa muito importante, à dialéctica do poder, dos que governam, deve estar sempre associado um elevado nível ético, intelectual e humano, a não ser assim, irá contribuir para a má imagem que os governados têm dos governantes, este governo foi paradigma.
Foi com este homem, que pela primeira vez vi depois do 25 de Abril um político actuar, não como um mortal, sujeito a errar, mas como um iluminado na posse da verdade absoluta.
Socialistas, quando fordes votar internamente para os órgãos do partido, lembrai-vos do seguinte: homens como Sócrates há lá muitos, deixou escola, se lhes derdes o vosso voto, irão fazer novamente o que lhes apetecer, sem um mínimo de respeito para convosco e para com os cidadãos que um dia poderão governar.
O Partido Socialista já perdeu a sua identidade, foi um partido da Revolução de Abril, foi um partido de trabalhadores, o que é hoje? O partido de uma classe média urbana acomodada, cuja ideologia do partido deixou de ser prioritária, como o pleno emprego, a defesa do Estado Social, e toda uma série de regalias que tinham os mais pobres e humildes da sociedade para erradicar a pobreza e a miséria.
É necessária uma cisão no Partido Socialista, a direita que é maioritária e dominadora, que se deixe estar, os socialistas democráticos de esquerda que formem um outro partido, uma nova esquerda, tipo Die Linke alemão? Porque não?
É necessário que assim seja, para bem da Democracia e dos Portugueses.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

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