Tem sido recorrente, nos últimos tempos, o envio de e-mails e a proliferação de artigos de opinião onde se defende que o regime político em que vivemos chegou o chegará ao fim, após 37 anos, a completar em Abril do próximo ano. A culpa é, claro, dos partidos políticos, que são «todos iguais».

João Aristídes Duarte - «Política, Políticas...»A alternativa que nos propõem só poderá ser um regime do tipo daquele que terminou em 25 de Abril de 1974, ou seja o tal em que não havia partidos políticos, ou melhor havia só um, a União Nacional. Alguns até o escrevem descaradamente, e nem me refiro ao Dr. Leal Freire e às suas crónicas com títulos como «A Lição de Salazar». Embora não concorde, nem um bocadinho, com o que escreve o Dr. Leal Freire, em defesa da ditadura salazarista, até compreendo que o escreva. O pior é quando esses artigos de opinião são escritos por pessoas mais jovens que têm um conceito completamente distorcido do que foi o regime salazarista.
É evidente que quem escreve esses artigos ou o faz de má-fé (em muitos casos) ou o faz sem conhecimento daquilo que escreve.
Há, no entanto, duas coisas a que os tais cronistas nunca se referem: a PIDE, porque sabem bem quanto foi odiada e ninguém tinha mais paciência para não poder ir ao café criticar os “políticos” e o tipo de escola que existia no tempo da Ditadura. Neste último caso, em que não existia indisciplina (devo, no entanto, referir que como professor e porque nunca me comportei mal enquanto estudante, não consigo, por mais que tente, compreender como há tanta indisciplina e o Governo nada faz para a combater), os cronistas não querem o regresso dessa escola. Como a poderiam querer se não havia Associações de Pais e o professor era respeitado? Isso não, que está fora de moda…
Critica-se o regime, que saiu da Revolução de 25 de Abril de 1974, afirmando que só favorece os políticos, quando o que se passa é que esse regime já nada tem a ver com o saído da Revolução. Ou não tivesse havido um 25 de Novembro que colocou o país na via da «normalização».
Com certeza que, de 25 de Abril de 1974 até 25 de Novembro de 1975 não foi para favorecer os políticos ou andar de cócoras perante o poder económico que a Revolução existiu.
É isto que a maior parte dos cronistas esquece.
Efectivamente, o regime que estamos a viver não é, verdadeiramente, fruto do 25 de Abril, mas sim do 25 de Novembro.
As sucessivas revisões constitucionais retiraram quase tudo o que havia de benéfico para o Povo na Constituição da República (já pouco resta). E, em contrapartida, colocaram ao serviço de uma certa classe política, uma série de benesses que não estavam na Constituição original. Tudo, sempre, com o beneplácito do PS e PSD (e nalguns casos do CDS) e com o sistema neo-liberal a tudo comandar, incluindo esses mesmos políticos que são uns meros serventuários do verdadeiro poder, que é o económico/financeiro.
Nas eleições para a Constituinte, realizadas em 1975, nenhum membro das mesas de voto era remunerado pela sua função. Este sistema ainda continuou em vigor durante alguns anos, mas depressa foi abandonado. Hoje, e desde há uns anos a esta parte, os membros das mesas de voto recebem uma remuneração pela sua actividade. Tudo, portanto, «normalizado».
Os membros das Juntas de Freguesia, durante anos e já em Democracia, não usufruíam de qualquer remuneração e hoje retira-se uma parte do orçamento dessas mesmas freguesias para remunerar os seus membros. Tudo, mais uma vez, «normalizado» (ou como alguém diria «pelos padrões europeus»). Queixam-se, depois, esses cronistas que a classe política leva uma parte do orçamento em mordomias. Mas não tornam a culpa aos verdadeiros responsáveis pelas sucessivas revisões constitucionais que adulteraram, por completo, o espírito original da Revolução.
Não foram os partidos que estão fora daquilo a que se costuma chamar o «arco do poder» que votaram a favor dessas mordomias aos políticos. No entanto, o eleitorado não tem qualquer pejo em andar a criticar essas benesses e voltar a cair no mesmo. Se o PS está nas horas da amargura (e parece que está, porque grandes «opinion-makers» já começaram a criticá-lo, quando o adulavam, o que é sintoma de que se preparam para as novas benesses do novo poder político, que esses nunca dão «ponto sem nó») toca a escolher o PSD que nos vai salvar. Depois arrependem-se (mais uma vez) e lá vem o PS (outra vez) salvar isto. Esses dois partidos são os chamados «Salvadores da Pátria».
Estou à vontade para o escrever porque sempre votei (nunca me abstive), nunca votei branco ou nulo e nunca nenhum deputado (que são tão criticados) foi eleito com o meu voto. Ah! e nunca me arrependi do meu sentido de voto.
«Política, Políticas…», opinião de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

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