Vemos a diário problemas e conflitos sociais, significa que continuam na ordem do dia, mas os assalariados e os sindicatos que os representam já não defendem os seus direitos com o mesmo ímpeto de outros tempos. A razão?

António EmidioPenso que tudo se deve a um aburguesamento, mais mental que material, da classe trabalhadora, devido como é lógico ao consumismo desenfreado próprio de um sistema económico que nos vai regendo desde há décadas. Mas chegámos a um momento em que a crise económica varre toda a Europa e, mais importante ainda, as classes médias aburguesadas estão na contingência de cair no proletariado, esta é a razão de mobilizações, greves e lutas de rua a que assistimos em alguns países europeus. Nestas lutas está implícita uma luta de classes, contrariando muitas teses que dizem já ter terminado. Os sindicatos perderam muito poder, deixando-o escapar para os partidos socialistas e sociais-democratas, ou seja, para o parlamentarismo. Também houve um corte com os ideais de luta e emancipação que se viam noutros tempos ainda não muito distantes. Os votantes socialistas e sociais-democratas procedem na sua quase totalidade da classe trabalhadora, mas os seus representantes nos parlamentos não passam de profissionais da política, cheios de prebendas e riqueza escandalosa. São elites afastadas daqueles que os elegem. Sabe uma coisa querido leitor(a)? Os representantes socialistas e sociais-democratas, com honrosas excepções, estão mais interessados em servir o sistema do que servir quem trabalha. Como exemplos notórios, temos o nosso ilustre e “socialista” primeiro-ministro, e o ilustríssimo líder da oposição social-democrata. Os partidos socialistas e sociais-democratas europeus são dirigidos por elites apoiantes da Globalização Neoliberal, Globalização Financeira e, bastante afastados do assalariado tanto público como privado.
É hora de mudança ideológica, de um novo tipo de políticos e governantes com uma visão mais social e que ponham a economia ao serviço do homem e não o contrário.
Nós portugueses, estamos numa situação social gravíssima que ainda não nos foi apresentada com toda a sua crueza pelos profissionais da política. Os Corifeus da comunicação social controlada pelo poder económico e também político, pagos a peso de ouro, passam a vida a dizer que vivemos acima das nossas possibilidades. É mentira! Quem vive acima de tudo e de todos são eles, com todo o luxo diário nos seus fatos, com os seus fundos de pensões privados, clínicas privadas e colégios particulares para os seus filhos. São eles que se insurgem contra o Estado Social, o Estado que ajuda aqueles que mais necessitam. Sabem, mas não dizem, que Portugal tem a sociedade mais desigual da Europa e eles ainda a querem desigualar mais.
Tenho como mestra a história, e ela diz-me que por razões financeiras graves, como a que actualmente atravessamos, surgiu uma ditadura que durou quarenta anos. Também me ensinou que o avanço do tempo, só por si, não pode ser visto como um factor do avanço dos valores morais, culturais, espirituais e humanos.
Para terminar. Ouvi na rádio que o Senhor Presidente da República «vê com muita apreensão o desprestígio da classe política». Só agora Senhor Presidente? Pelos anos de 1975 ou 1976, ouvi um «político» aqui na nossa então Vila dizer, não na rua, mas em reunião, que iria pôr um familiar na Câmara Municipal como vereador, cuja capacidade de tocar guitarra e cantar o fado era insuperável. Caricato? Sem dúvida, um pequenino grande exemplo do que foi e é tudo isto. Leia querido leitor(a) o que eu escrevi num dos últimos parágrafos «…o avanço do tempo não pode ser visto…».
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

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