Para passar os cursos de água a pé enxuto o povo construiu, por seu próprio engenho e com recurso ao que tinha à mão, um conjunto de obras que ainda hoje perduram, dentre as quais se contam as poldras e os pontões.

Pontão - SabugalNo início o homem foi nómada. Andava em constante movimento, à busca de sustento, descansando onde calhava. Vivia da caça, da pesca e da colheita de frutos e bagas silvestres. Só depois estacionou, passando a viver em comunidade fixa, cultivando a terra e dela colhendo a mantença. Mesmo assim, nunca por nunca a espécie humana negou a mobilidade. Embora sedentário, não estava preso à casa e à horta, calcorreava os montes na caça e na guerra e, quando não tinha arrimo garantido, procurava-o onde o houvesse, ainda que muito longe fosse. Daí a importância dos meios de comunicação, a começar pelas veredas e caminhos, necessários para se ir de jornada.
O maior problema das vias de comunicação terrestres era a ultrapassagem de obstáculos naturais, como serras, ravinas, rios e florestas muito densas. Não logrando uma forma de cruzar tais empecilhos, o caminhante tinha de percorrer longas distâncias para os contornar, o que em muito prolongava a viagem. Teve portanto de se meter ao trabalho, escavando passagens pelo topo das serras, descendo perigosíssimos desfiladeiros ou cortando matagais.
Um dos maiores estorvos era o dos cursos de água, rios ou ribeiros fossem, que na altura das chuvas corriam a bom correr, afigurando-se de dificultosa supressão. Onde fosse viável, a passagem era a vau, com pés ou rodas por dentro da água baixa. Mas nem sempre havia lugares desses e ao caminhante nada convinha molhar os pés.
Tiveram de buscar-se soluções práticas. Onde o leito era baixo, foi colocada uma fieira de pedras pesadas, para que a corrente inverniça as não movesse. Eram as poldras, devendo o labrego saltar de umas para outras até alcançar a outra margem. Um pé em falso ou a escorregadela numa pedra molhada era chambote certo. Mas o problema das poldras, que o povo também designa de alpondras e espoldras, estava no crescimento do nível das águas. Uma pingas de chuva bastavam para que as águas corressem esfalfadas dos montes para os vales, engrossando o leito das ribeiras e submergindo as poldras, que assim ficavam intransponíveis.
Noutros casos, onde o curso de água era mais farto, optou-se por construção mais aparatosa, que exigia intervenção de mestres. Com lajas grandes, talhadas a guilho, construíram-se pequenas e estreitas pontes, os chamados pontões. Aqui a obra exigia ciência, pois teria de ter solidez para resistir às épocas de intempérie. Procurava-se local onde o curso de água fosse estreito e pouco profundo, mas há pontões que têm mais de cem metros de comprido, resistindo erectos à força das águas e ao tempo.
Escolhido o local da construção iniciavam-se os trabalhos, que forçosamente teriam de ocorrer no estio, quando a ribeira estivesse seca ou fosse possível desviar o seu curso. Primeiramente eram enterrados os esteios, que consistiam em pedras com um metro de largo e mais de dois de comprido, colocadas de través, para que as águas as não derrubassem. Depois, encostadas a cada esteio eram colocadas outras pedras, igualmente compridas, mas mais estreitas, que serviriam de contrafortes e corta-águas. A derradeira fase consistia na colocação das lajas, com cerca de um metro de largura e dois e meio de comprido, que ficariam assentes nos esteios, com as juntas protegidas pelo topo dos contrafortes.
Era um trabalho comunal, com o povo interessado reunido em esforço. Tudo feito à força braçal ou com a ajuda das juntas de vacas que transportavam e arrastavam as pedras para o seu lugar.
A força impetuosa das águas e as lenhas arrastadas que embatiam fortemente na construção, derrubavam por vezes parcialmente os pontões. Mas o aldeão voltava a reunir-se em esforço colectivo para garantir a sua reparação.
Entretanto o mundo rural mudou. As poldras e os pontões ficaram apenas como memória, preservados num lugar ou outro porque as águas andam calmas ou porque alguém diligente trata de reparar os rombos que sofrem. Na verdade, estes testemunhos do viver de outras épocas perdem-se com o tempo. Nalguns lugares foram arrancados para dar lugar a novas pontes, mais largas e práticas. Noutros locais, foi o desleixo que acabou por deixar que a força das águas destruísse as velhas passagens a pé enxuto.
Ainda há pontões e poldras que resistem e que merecem cuidada intervenção tendo em vista a sua salvaguarda. A incúria pode levar ao completo desaparecimento deste importante património popular.
Paulo Leitão Batista

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