INTERPRETAÇÃO DO SAGRADO – Na Igreja matriz de Vilar Maior existe uma pia baptismal, oriunda da antiga igreja da Senhora do Castelo, que é intrigante, não só pela forma em caldeirão, como pelos símbolos da sua face exterior, que tem, num friso superior, a repetição de uma figura humana estilizada, e uma corda em todo o seu perímetro, separando do friso inferior, onde estão representados vários círculos concêntricos repetidos.

(Clique nas imagens – 1 e 2 – para ampliar.)

João Valente - Arroz com Todos - Capeia ArraianaEste monumento monolítico (figuras 1 e 2) que é semelhante a um existente na Igreja da Misericórdia de Alfaiates, tem na sua face exterior um conjunto de símbolos que também estavam reproduzidos no primitivo pórtico românico da Igreja da Senhora do Castelo, o que com toda a certeza prova que a sua data é a desta primitiva Igreja, à qual se destinou.
Sabemos que raros são os fenómenos mágico-religiosos que não implicam, um certo simbolismo. E isto já vem da antiguidade, por exemplo quando certas pedras (de que temos dois exemplos também no Museu de Vilar Maior) e outros objectos adquiriram qualidade mágico-religiosa graças a uma teofania (manifestação da divindade), hierofania (manifestação do sagrado) ou cratofania mediatas, isto é, através de um simbolismo que lhes confere um valor mágico e religioso.
Explicando: Um objecto, porque representa o sagrado, torna-se também sagrado, podendo, por isso, ser encarado como uma hierofania, portador de uma realidade trans-espacial, que introduz no mundo profano.
Umas vezes, esta hierofanização faz-se, como é o caso das referidas pedras do Museu de Vilar Maior, de forma pouco transparente, mas outras vezes, como é o caso desta pia baptismal, por símbolos evidentes, que se revelam pela forma dos mesmos, tal como tem sido apreendida pela experiência mágico-religiosa de toda a humanidade, cujas raízes vêm já da simbologia pré-histórica.
O sentido destes símbolos da pia baptismal pode ser penetrado pelo seu estudo particular como prolongamento de uma hierofania integrada na sacralidade das águas e cosmologias aquáticas que lhe está subjacente, como forma autónoma de revelação que prolonga aquela numa epifania particular, no contexto funcional em que se insere.
Naturalmente que à primeira vista, a um leigo, este sentido não se manifesta de forma evidente nos símbolos da pia baptismal, que são vistos, pela generalidade das pessoas que a têm examinado, como um conjunto de desenhos curiosos e não como um conjunto interdependente que apresenta uma «linguagem» inacessível a qualquer leigo.
Mas se falarmos, ainda que de forma resumida, das várias hierofanias aquáticas, como a simbologia da imersão nas águas (baptismo, dilúvio, «Atlântida»), da purificação pela água (baptismo, libações funerárias, banhos rituais, etc), e as relacionarmos com os símbolos da pia baptismal, qualquer pessoa menos atenta perceberá que não são por acaso aquelas suas formas e que as mesmas têm um significado coerente.
As tradições do dilúvio (comuns a várias civilizações) ligam-se quase todas à ideia de reabsorção da humanidade na água e à instauração de uma nova era, com uma nova humanidade. Nestes mitos neptunianos, as águas precedem toda a criação e reintegram-na periodicamente a fim de a purificar e regenerar; a humanidade desaparece periodicamente no dilúvio ou na inundação por causa dos seus pecados, reaparecendo sob nova forma, retomando o mesmo destino.
Da mesma forma, o baptismo significa o apagar do pecado original da primitiva humanidade, filha de Eva, renascendo o neófito como homem da nova era, filho da nova Eva, mãe de Cristo, readquirindo a graça perdida em ordem à sua salvação. Como dizia S. Tomás de Aquino no seu tratado sobre os artigos da fé e sacramentos da Igreja «Effectus autem Baptismi est remissio culpae originalis et actualis, et etiam totius culpae et poenae, ita quod baptizatis non est aliqua satisfactio iniungenda pro peccatis praeteritis, sed statim morientes post Baptismum introducuntur ad gloriam Dei» [o efeito do baptismo, é a remissão do pecado original actual, e mesmo de toda a falta e toda a pena, de forma que não é preciso fazer nenhuma reparação pelos pecados passados; mas os que morrerem logo depois do baptismo, são imediatamente introduzidos na glória de Deus].
Ou seja, quer num caso, que noutro, a função das águas é a de desintegrarem, extinguirem as formas, «lavarem os pecados», purificando e regenerando ao mesmo tempo.
Esta convergência não é de forma alguma estranha, porque a concepção cíclica do cosmos, a morte e ressurreição, são grandes temas que dominam todas as religiões desde a antiguidade, sendo confirmada desde a pré-histórica, nos mitos lunares com os temas da inundação e dilúvio, porque a lua era desde tempos imemoriais, pelas suas fases, o símbolo do devir rítmico, tanto do fim da vida como de um novo começo, em que o destino de todas as formas, tal como o da vida humana, é de se dissolverem para poderem reaparecer como a nova lua.
O céu fica escuro durante três noites, mas na quarta noite volta a nascer. E assim, sendo o renascimento uma certeza, a morte não era mais que uma mudança, um renascimento numa outra espécie de «existência».
A lua era por isso a teofania que revelava a Realidade infinita, daí que esteja representada, com outros elementos, nos símbolos da pia baptismal, como veremos na próxima semana.
(Continua.)
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

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