A cantiga que hoje apresento é uma cantiga religiosa ou cantiga da Quaresma, integrada no ciclo Pascal. Há muitas em Portugal com esse nome, todas referentes ao Ciclo Pascal. O seu título é «Alvíssaras».

João Aristídes Duarte - «Música, Músicas...»As «Alvíssaras» eram dirigidas a alguma divindade (no Soito, talvez a Nossa Senhora dos Prazeres – não foi possível apurar).
Na região da Beira Baixa também acontecia assim, uma vez que há relatos de que era costume, em tempos mais antigos, em Aldeia de Santa Margarida (Idanha-a-Nova) ou Juncal do Campo (concelho de Castelo Branco) que na madrugada de Sábado de Aleluia se fossem dar as alvíssaras (Boas-Festas) à Senhora da Granja e à Senhora das Dores e, claro, ao vigário da freguesia.
Mais uma vez se torna claro que a música tradicional do Soito (e do concelho) tem muitas semelhanças com as músicas da Beira Baixa.
Hoje, no Soito, já não se pratica o passeio de várias pessoas pelas ruas da freguesia, acompanhadas pelo pároco, aqui conhecido como «Tirar o Folar» e noutras regiões do país conhecido como «Compasso». Eu ainda me lembro dessa cerimónia, realizada na segunda-feira a seguir à Páscoa, em que o passeio era acompanhado pelo sacristão que tocava uma campainha e em que o pároco ia a todas as casas da freguesia dar as Boas-Festas. Já durante a época da Quaresma ainda me lembro de ver o sacristão a tocar umas «matráculas» (que eram constituídas por uma tábua com ferros, que era manipulada de modo a produzir barulho), já que os sinos não podiam tocar.
Eis a letra das «Alvíssaras» do Soito:

Dai-me alvíssaras, Senhora
Deitai-mas no meu chapéu
O Vosso amado filho
Já subiu da Terra ao Céu

Dai-me alvíssaras, Senhora
Num raminho de «sarpão»
O Vosso amado filho
Já desceu do Céu ao chão

Dai-me alvíssaras, Senhora
Dai-mas, se m’as quereis dar
O Vosso amado filho
Já tornou a ressuscitar

Dai-me alvíssaras, Senhora
Deitai-mas no meu «mandil»
O Vosso amado filho
Já tornou a ressurgir.

Ainda sobre a música tradicional apraz-me referir que o cantor Roberto Leal editou já dois discos (em 2007 e 2009) de títulos «Canto da Terra» e «Raiç» (a palavra mirandesa para raiz). Estes discos nada têm a ver com o Roberto Leal (que nasceu em Vale da Porca, concelho de Macedo de Cavaleiros) mais conhecido. São trabalhos, verdadeiramente, representativos da melhor música tradicional portuguesa. Nestes trabalhos Roberto Leal contou com a participação de músicos da Brigada Victor Jara, Galandum Galundaina, Quadrilha e Tocá Rufar e canta em mirandês.
AlvíssarasRoberto Leal que regressou às suas raízes transmontanas, das quais se havia afastado, recorda que nestes trabalhos estão «memórias que foram guardadas pela vida fora, dos tempos em que pensava que falava uma língua rude». Mais curiosa ainda, da parte do cantor, a referência a que «ainda em adolescente, e sem o compreender, fui alvo de chacota por causa da minha pronúncia quando dizia txabe em vez de chave, e achava, como muitos transmontanos de então, que trocar o V pelo B era ignorância».
Confesso que nunca fui grande fã de Roberto Leal, enquanto cantor de música ligeira, mas estes seus dois trabalhos e o facto de referir aquilo que escrevi lá atrás levaram a que passasse a admirá-lo. Temos a obrigação de, pelo menos em escritos, preservar aquilo que nos foi legado pelos nossos avós e é isso que eu tento fazer com estas crónicas sobre música tradicional do Soito.
«Música, Músicas…», crónica de João Aristides Duarte

(Membro da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

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