Numa pequena cidade de província, junto à fronteira, ergue-se um castelo onde em tempos esteve, por males de inveja, preso um célebre cabo-de-guerra. Reza a lenda que, estando ele incomunicável, e a pão e água, conseguiu por artes de engenho e das letras recortadas de um velho hagiógrafo fazer uma carta que mandou ao rei, que o soltou. Isto é o que diz a lenda, que sendo coisa do imaginário popular, a gente é livre de acreditar ou não. E cada um acredita no que quiser…

Castelo do Sabugal

João Valente - Arroz com Todos - Capeia ArraianaPois adentro das muralhas do referido castelo houve em tempos um cemitério onde trabalhou um coveiro, cujo apelido era Torres.
Dizem as pessoas antigas que era um tipo mal-encarado, intratável, taciturno, solitário e bêbado, como convém a um sujeito que lida com a morte.
E contam elas, que por altura do São João, noite de festa na terra, em ano que os mais velhos já não sabem precisar, o Torres acendeu a candeia, pôs a enxada e a pá ao ombro e foi ao cemitério, pois tinha de abrir uma sepultura para a manhã seguinte.
No caminho, ao passar pelo Largo do Castelo, viu alegres magotes de gente reunidos em volta das fogueiras, sentiu o cheiro intenso do rosmaninho que ascendia em forma de nuvens vaporosas, ouviu os risos e gritos das crianças cruzando a praça em jogos de infância.
Passou indiferente e chegando à zona escura do portão do castelo, entrou fechando-o atrás de si.
Tirou a jaqueta, deixou a candeia no chão e começou a cavar sem parar. Mas como era terra virgem, progredia com dificuldade. Ao fim de umas duas horas terminou a cova e sentando-se numa lápide, ali vizinha, murmurou:
Dez palmos abaixo de terra e outros tantos ao cumprido em noite de São João; Boa cama para qualquer um, boa cama! – E foi buscar a garrafa de aguardente.
Boa cama… Boa cama… – Repetiu uma voz no momento em que ía levá-la aos lábios.
O Torres olhou em volta e não viu ninguém. No cemitério havia o mais completo silêncio.
Foi o eco – disse, levando outra vez a garrafa aos lábios.
Não, não foi! – Replicou uma voz cavernosa.
O Torres levantou-se aterrorizado e viu sentado numa lápide junto dele a figura fantasmagórica de um mendigo – mas isso não percebeu o Torres – que lhe gelou o sangue.
Não foi o eco! – Repetiu o mendigo que ali costumava pernoitar, por ser lugar sossegado.
Na manhã seguinte encontraram no cemitério a candeia, a enxada, a pá, a jaqueta e a garrafa, mas do Torres nunca mais houve notícias.
O mais certo é que o Torres, assustado e querendo fugir no meio daquele breu, foi cair na cisterna que havia no meio do recinto.
Procuraram-no por todo o lado, menos na funda e escura cisterna, da qual ninguém se lembrou.
Especulou-se acerca do destino do Torres, mas rapidamente se decidiu que o tinham levado as almas e, penando, vagueava pelas redondezas; e não faltaram alguns testemunhos que juraram vê-lo, quando episódios inexplicáveis começaram a dar-se no castelo:
Passos nas barbacãs, barulhos de correntes nas antigas masmorras, murmúrios estranhos à noite, o ferrolho da porta do castelo que se fechava misteriosamente e muitos outros fenómenos que costumam suceder em locais assombrados como aquele.
Entretanto o castelo deixou de fazer de cemitério e esta história acabou gradualmente por ser esquecida, e, não fora um recente episódio, nunca mais ninguém se lembraria do fantasma do antigo coveiro:
Há dias, pela hora de almoço, visitando o castelo um casal de turistas, fechou-se o portão, deixando-os involuntariamente prisioneiros.
Acudiu aos gritos um vizinho solícito que, encostando uma escada à muralha, resgatou os infelizes turistas.
Levantaram-se hipóteses para o enigmático fecho do portão.
Alguém alvitrou que teria sido um funcionário da câmara que, apressado para o almoço, não se apercebera dos turistas.
E foi então que uma velha moradora do largo contou esta lenda do Torres, ouvida à sua avó.
Enfim, cada um acredita no que quiser…
Mas sendo ou não o fantasma do Torres, à cautela, alguém tome conta do assunto.
É que, segundo consta, já não é a primeira vez que o portão se fecha com turistas lá dentro!
Ou talvez o Torres ainda ande por aí a fazer das suas… Quem sabe?
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

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