A região raiana é tradicionalmente original. A tradição raiana é originalmente intangível. Com marcas únicas a precisar de reforçar atitudes sem hábitos e onde o design tradicional é um factor diferenciador. Na estratégia da mensagem as características físicas do produto e respectivos atributos são argumentos que devem «agarrar» do princípio ao fim os participantes. Em resumo a tradição é o lado intangível das características físicas dos produtos. Os casamentos e as despedidas de solteiro… também.

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Um estudo recente – onde foram comparados os territórios que sofrem com a desertificação e o envelhecimento das populações – chegou a uma conclusão interessante. O concelho do Sabugal é aquele que consegue cativar mais «segundas» e «terceiras» gerações a voltar em tempo de férias. Ou seja, os descendentes de emigrantes sabugalenses (filhos, netos e bisnetos) continuam a voltar todos os anos às suas origens.
No nosso vocabulário raiano há pormaiores deliciosos. Janeiro é Janeiro, Fevereiro é Fevereiro mas Agosto é «o mês de Agosto». Agosto sempre teve um estatuto especial nos sabugalenses. O imenso mês de Agosto foi, é, uma marca raiana que reúne experiências de valor vividas pelos seus protagonistas, ou seja, por todos nós. Tal como na pirâmide das marcas do conceito de branding o mês de Agosto no Sabugal é uma imagem sinalizadora, identificadora, catalisadora e personificadora da personalidade raiana.
Manda a tradição que as Capeias Arraianas, as festas religiosas, os convívios familiares e… os casamentos na Raia sejam, sempre que possível, no mês de Agosto.
Apenas tinham decorrido quatro dias do mês de Agosto quando um amigo (que por sinal é meu quinto) me pediu para o acompanhar a uma despedida de solteiro na Nave. No lameiro das borgas, junto aos assadores, lá estava o Sérgio Tomé (candidato a noivo) em animada cavaqueira com os seus familiares e amigos. Já perto da meia-noite o Sérgio foi surpreendido por uma surpresa preparada pelos primos. Uma imensa limusine branca de 11 metros conduzida por um motorista fardado a rigor estacionou à vista de todos. Depois de uma difícil manobra para voltar à estrada nacional a limusine arrancou com a lotação esgotada. No seu interior acomodaram-se 12 viajantes num longo sofá de cabedal preto que preenchia um dos lados da viatura. O outro lado estava equipado com um imenso bar iluminado onde não faltavam garrafas e copos. A primeira paragem foi em Alfaiates. A noite foi – ao que me contarem depois – longa. As despedidas de solteiro já não são o que eram mas mantém o lado intangível das características físicas dos produtos.
No sábado seguinte (quatro dias depois) foi tempo de casório. E mais uma vez os noivos inovaram mantendo um design tradicional «movido a gasolina». O transporte, entre a igreja e o copo-de-água, foi feito numa carrinha de caixa aberta decorada pelo Manuel Leitão com elementos da tradição raiana como o cântaro de barro, cabaças, alfaias agrícolas, chocalhos, garrafões e o cadeirão com uma manta de linho onde se sentavam os noivos. E que bonita ia a noiva…
Votos de felicidades para a Paula Madeira e para o Sérgio Tomé.
«A Cidade e as Terras», crónica de José Carlos Lages

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