A edição on-line de ontem, 29 de Agosto, do jornal israelita «The Jerusalem Post» contém um artigo que relata uma viagem a Portugal que passou pela Casa do Castelo, no Sabugal, onde a viajante se comoveu ao deparar-se com o altar representativo das práticas de culto dos judeus que foram obrigados a converter-se ao cristianismo.

O artigo, intitulado «No trilho dos judeus de Portugal», é escrito por Judith Fein, uma jornalista e escritora sobejamente conhecida, que manifesta o prazer de viajar pelo mundo em busca de vestígios dos povos judaicos.
Na visita que fez a Portugal, acompanhada pelo marido, a sua atenção centrou-se nos milhares de judeus que foram forçados a converter-se ao cristianismo, mantendo porém, às ocultas, a prática do culto original. A primeira etapa foi em Lisboa, no Largo de S. Domingos, junto ao Rossio, onde observou comovida o monumento às vítimas da intolerância e do fanatismo religioso. Naquele lugar foram queimados por ordem da Santa Inquisição alguns milhares de judeus em 1506.
Em Lisboa a autora percorreu ainda as ruas de Alfama, que era o bairro onde viviam muitos dos judeus que passariam a ser chamados «cristãos-novos», por se terem convertido ao cristianismo para evitarem a sua expulsão de Portugal.
Depois a jornalista tomou parte numa visita guiada até ao centro e norte de Portugal. A caminho de Belmonte, a comitiva passou no Sabugal. Quando se dirigiam ao castelo o guia, apontando a Casa do Castelo, informou: «Aqui encontraram um Aron HaKodesh».
Judith Fein conta que correu imediatamente para a casa, onde entrou e falou com a proprietária, a Natalia Bispo, que a acompanhou ao andar de baixo e lhe apontou um armário de pedra incrustado na parede.
A viajante ficou comovida: «No fundo do armário havia dois grandes buracos redondos. O meu coração bateu. Sabia instintivamente que os furos marcavam o local onde a Tora estivera. Há 15 anos que estudo, escrevo e falo sobre os judeus que viviam em segredo, mas esta foi a primeira vez que vi provas físicas das orações clandestinas no lugar onde elas aconteceram.»
Conta depois como Natália Bispo lhe explicou a descoberta do armário: «Há cerca de quatro anos, eu e o meu marido comprámos esta casa de pedra que estava muito velha e completamente degradada. (…) Nós queríamos transformá-la num restaurante e numa loja, chamada Casa do Castelo, onde pudéssemos vender produtos regionais e artesanato local. Durante o processo de restauração, descobrimos algo surpreendente: um armário fora do comum que estava embutido numa parede de granito de grande espessura, a cerca de três metros do chão. Tinha uma moldura de madeira, e duas portas também de madeira, e dentro tinha duas prateleiras de pedra. Na parte inferior tinha dois círculos afundados no granito. O armário foi observado por dois arqueólogos que consideraram tratar-se de um altar de culto judaico, um “Armário da Lei”, “Aron HaKodesh”, ou “Arca”. »
A jornalista conta como, face á emoção, lhe rodopiaram na mente possíveis explicações para aquele importantíssimo achado: «Estaria a olhar para o vestígio de uma sinagoga? A casa de um rabino? Quem tinha ali rezado? Será que a arca existiu antes da Inquisição? Seria usada durante e depois da Inquisição?»
Depois especulou a partir da posição geográfica do Sabugal, que está junto à fronteira com Espanha, sendo possível que os judeus expulsos desse país tenham tido abrigo nesta casa e que depois continuassem as práticas de culto em segredo, desafiando a proibição prescrita.
Já em Belmonte, vila que visitou pela terceira vez, falou com o director do Museu Judaico da sua «espectacular» descoberta no Sabugal, tendo-lhe António Mendes confirmado o uso desses armários pelos cristãos-novos, que assim mantinham a prática judaica em segredo.
plb

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