A 27 de Agosto de 1810, há precisamente 200 anos, as tropas do 2.º corpo do exército francês, comandadas pelo general Reynier, vindas do sul para se juntarem ao grande exército de Massena, ocuparam em força as terras dos concelhos do Sabugal, Alfaiates e Vilar Maior, provocando a fuga desesperada das populações.

Enquanto o 6.º corpo, de Ney, manobrava em redor de Almeida, estabelecendo o cerco à fortaleza, e o 8.º corpo, de Junot, estava ainda em Espanha nas margens do rio Águeda, o 2.º corpo, de Reynier, operava em Cória e Placencia, na linha do Tejo. Massena montara o seu quartel-general no forte de La Conception, frente a Vale da Mula, de onde emanava as ordens do dia.
O marechal ainda não decidira como invadir Portugal e estava inclinado a fazê-lo em duas frentes, partindo uma coluna de Almeida, pela estrada da Beira, e penetrando a outra pelo vale do Tejo, em direcção a Abrantes. Porém acabaria por preferir juntar os três corpos e avançar em força por Celorico e Viseu, pois a postura de Wellington, que deixara cair Ciudad Rodrigo e não auxiliava Almeida, indiciava que podia dar-lhe perseguição e enfrentá-lo em qualquer posição.
Foi assim que na manhã do dia 25 de Agosto enviou ordens a Reynier para se deslocar para norte e tomar posição na margem direita do Côa, à esquerda do corpo do marechal Ney. Em cumprimento dessas instruções, o 2.º corpo avançou em marchas rápidas e no dia 27 ocupou em força os concelhos do Sabugal, Alfaiates e Vilar Maior, cujas aldeias ao redor foram também tomadas pelos destacamentos, tendo os soldados ocupado as casas abandonadas pelos habitantes receosos. Tal como o comandante em chefe lhe prescrevera, Reynier estabeleceu o seu quartel-general em Alfaiates e guarneceu fortemente a ponte do Sabugal, tendo em vista dissuadir qualquer tentativa do exército anglo-português de atravessar a linha do Côa.
Os concelhos raianos onde até então tinham forrageado os destacamentos do 6.º Corpo, ficavam agora literalmente ocupados pelas tropas do 2º corpo, as mesmas que com o marechal Soult haviam protagonizado a segunda invasão de Portugal. Estes soldados experientes e com amargas recordações dos portugueses teriam que ali subsistir até que fosse dada a ordem de avançar em direcção a Lisboa. Os povos das terras em redor sofreram então como nunca os excessos da soldadesca que, querendo alimentar-se e aprovisionar-se de viveres, lançavam mão a tudo o que servisse de alimento para os homens e para os animais do exército.
Esta forte e dura ocupação militar das nossas terras manter-se-ia até ao dia 11 de Setembro, data em que Massena transmitiu aos seus lugares tenentes as instruções para a execução dos movimentos preparatórios para o avanço da invasão. Nesse mesmo dia o 2.º corpo deixou as suas posições na margem direita do Côa e marchou para a Guarda, de onde depois prosseguiu num movimento combinado com os restantes corpos do exército.
Já em finais de Março de 1811, malograda a terceira invasão e em plena retirada, as tropas do 2.º corpo voltariam a ocupar as terras do Sabugal, com a ideia de aí conterem o avanço dos anglo-lusos, que lhes davam perseguição. As populações voltaram então a sofrer com as atrocidades dos soldados franceses que vinham ainda mais famintos e coléricos do que quando dali haviam estado há sete meses.
No dia 3 de Abril de 1811, teve lugar a batalha do Sabugal, onde os homens de Reynier foram batidos pelos portugueses e ingleses comandados por Wellington, livrando-se assim os sabugalenses das pilhagens e dos excessos da tropa francesa.
Paulo Leitão Batista

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