Inaugurado em 30 de Julho de 2010, o Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Côa merece uma visita pelo seu edifício, pelo enquadramento paisagístico e pelo conteúdo.

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Adérito Tavares - Na Raia da Memória1 – A arte rupestre do Vale do Côa
O Côa nasce na serra de Malcata, perto de Foios, concelho do Sabugal, percorrendo depois cerca de 115 quilómetros até ao rio Douro, junto a Vila Nova de Foz Côa. A maior parte do seu percurso, feito de sul para norte, decorre num vale alcantilado e rochoso, granítico em boa parte, xistoso no final. E foi justamente aí, em numerosos painéis xistosos das margens do Baixo Côa e do Douro, que os nossos distantes antepassados efectuaram centenas de gravuras e algumas pinturas.
Quando, no começo dos anos 80 do século XX, foi construída no Douro a barragem do Pocinho, a elevação das águas fez submergir vários desses painéis, sem que a questão tenha tido o impacto que, no princípio dos anos 90, a construção de uma nova barragem, esta no vale do Côa, viria a ter. É que, enquanto a EDP prosseguia com os trabalhos preparatórios para a construção da albufeira, novas pesquisas arqueológicas revelavam um valiosíssimo conjunto de gravuras até aí desconhecidas.
Iniciou-se então uma campanha contra a construção da barragem, com o slogan “as gravuras não sabem nadar” a invadir jornais e televisões. Nesta campanha destacou-se, do ponto de vista científico, o arqueólogo João Zilhão.
A EDP, que insistia na barragem, encomendou «peritagens» que contrariassem a autenticidade da arte rupestre do Côa e o IPPAR, fortemente pressionado devido à indiferença com que estava a olhar a polémica, acabaria por aceitar a realização de estudos internacionais de reconhecido mérito científico. Esses estudos, apesar de algumas divergências sem grande significado, acabariam por reconhecer a autenticidade das gravuras e, pouco tempo depois, foi criado o Parque Arqueológico do Vale do Côa (1996). As pesquisas efectuadas a partir de então, dirigidas principalmente pelo arqueólogo Mário Varela Gomes e pelo pré-historiador de arte António Martinho Baptista, identificaram e estudaram, no Baixo Côa, 30 sítios com arte rupestre do Paleolítico Superior e da Segunda Idade do Ferro, datando as gravuras mais antigas de há 25 000 anos. Estas gravuras representam, fundamentalmente, animais, sobretudo cavalos e bovídeos (auroques), embora existam também algumas representações humanas. Em 1998, a arte do Côa foi classificada pela UNESCO como Património da Humanidade.
Os sítios arqueológicos do Baixo Côa passaram a ser observados com regularidade por numerosos visitantes, devidamente conduzidos por guias ou por arqueólogos. Faltava, porém, um museu que enquadrasse todo o conjunto.

2 – O Museu do Vale do Côa
Inaugurado em 30 de Julho de 2010, o Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Côa merece uma visita pelo seu edifício, pelo enquadramento paisagístico e pelo conteúdo. O Museu foi construído com o objectivo de contextualizar os achados arqueológicos do Baixo Côa e desenvolve-se ao longo de quatro pisos que incluem auditório, serviço educativo, área administrativa, restaurante, loja e salas expositivas.
O Museu do Côa é da autoria de dois jovens arquitectos da escola do Porto, que venceram com mérito o respectivo concurso: Tiago Pimentel e Camilo Rebelo. Eles idealizaram um gigantesco monólito de xisto com janelas em frestas, semi-enterrado, com oito metros de altura na vertente virada para o vale do Douro. Perfeitamente inserido na paisagem, situado numa elevação sobranceira à confluência do Côa e do Douro, o edifício do Museu lembra simultaneamente uma gruta rupestre e uma nave pousada sobre a paisagem ondulada da Beira Transmontana. Quando o visitante se encaminha para a recepção, parece que está a entrar por uma fenda aberta numa caverna de betão. Nas salas de exposição, de paredes negras, ressaltam monitores com todo o tipo de imagens, filmes e informações, bem como desenhos de auroques gigantes, cavalos e cervídeos. Como o verdadeiro objecto de estudo do Museu se encontra in loco, no exterior, não faltam réplicas das gravuras e todo o tipo de materiais encontrados nas escavações.
Exteriormente, sobretudo a partir da cobertura de betão enrugado, a lembrar xisto, temos uma vista deslumbrante sobre os vales do Côa e do Douro.
Consegui motivar os leitores a visitar o novo Museu do Côa? Espero que sim. É que nós, transcudanos da raia sabugalense, sentimo-nos muito próximos desses longínquos artistas do Vale do Côa.
A galeria de fotografias (uma pequena selecção das muitas dezenas que fiz), talvez ajude os mais cépticos a decidir-se por uma visita (que, já agora, poderá ser precedida por um dos percursos guiados às próprias gravuras).

Informações práticas
Para visitar o Museu do Côa deve aceder-se à cidade de Vila Nova de Foz Côa e, a partir daí, seguir a indicação «Museu». A estrada é boa. Ao contrário do Museu, que não exige marcação prévia, as visitas aos sítios arqueológicos onde se encontram as gravuras exigem marcação com antecedência. Os leitores interessados poderão obter informações detalhadas… Aqui.
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Alguns sites recomendados
Da Finitude do Tempo. Aqui.
As Gravuras Paleolíticas do Vale do Côa. Aqui.
Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Côa. Aqui.
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«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

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