No jardim, no quintal, a figueira ao cantinho das escadas, onde me sento dia após dia, durante horas, a ver as sombras do muro e da nogueira no jardim, o contorno das ramadas das carvalhas, o vulto das árvores, a noite a subir gradualmente no Arsaio e a engolir a cruz, o chão da forca.

João Valente - Arroz com Todos - Capeia ArraianaNo jardim, no quintal, a figueira ao cantinho das escadas, onde me sento dia após dia, durante horas, a ver as sombras do muro e da nogueira no jardim, o contorno das ramadas das carvalhas, o vulto das árvores, a noite a subir gradualmente no Arsaio e a engolir a cruz, o chão da forca.
Subo o balcão, muito cansado, tão cansado, que depois do jantar deixo-me ficar deitado no sofá da sala, um pouco sombria, quase às escuras. Pela janela o contorno negro dos cedros das Portas, e no intervalo deles, o disco vermelho do sol a descer. Pego num dos livros do meu pai sobre ervanária, para matar o tempo, e leio durante uns minutos.
Na sala a escuridão avança, enquanto lá fora o dia expira, até que me levanto e vou à varanda, de onde, avisto o contorno do castelo cada vez mais ténue, a agulha da torre que se apaga por cima dos telhados das casas e dos quintais, pouco a pouco. O muro da casa ainda está quente dos raios do sol. Arrasto uma cadeira e durante uns breves dez minutos fico sentado na varanda, os membros exaustos, olhos cansados, a despedir-me do dia.
As roseiras, espalhadas pelo canteiro do furo, ganham uma súbita tonalidade azul, depois vão-se apagando devagar, muito devagarinho, à medida que a luz se lhes vai escapando. Sem que me apercebesse, o verde da figueira e da nogueira transfigurou-se em negro e a crista dos montes desapareceu. A iluminação pública acendeu-se. Lá em baixo no caminho dos regatos, mesmo na orla da aldeia, passa um vulto de enxada ao ombro.
Regresso para dentro e acendo a luz. Abro de novo o livro numa página à sorte. Uma borboleta esvoaça pela sala, paira no ar com um leve bater de asas e vai bater no vidro do candeeiro do tecto.
Com novo esvoaçar, desaparece pela janela, para escuridão da noite. Com ela vai todo o mistério da criação, toda a sua magia, toda a sua maldição.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

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