A mercearia do meu bairro é dos únicos locais aqui em Leiria onde costumo encontrar os queijos Torre (Rendo, Sabugal) e Ródão (Vila Velha de Ródão) que aprecio e consumo. São curiosamente dois produtos originários de vilas acasteladas, ribeirinhas, desertificadas e às quais tenho ligações afectivas.

Queijo

João Valente - Arroz com Todos - Capeia ArraianaSe o branco casario do Sabugal é dominado pelo ocre do seu castelo Dionisiano, o castelo do rei Wamba paira como águia vigilante sobre a acentuada colina de Vila Velha; Se o Côa demora a passagem num largo cotovelo para ir molhar os pés do Sabugal, o Tejo alarga as margens em Vila Velha receando transpor a garganta abrupta do Ródão; Se muitas freguesias dos Sabugal não assistem a um nascimento há décadas, em Vila Velha o pragmático padre António Escarameia junta os funerais por não ter mãos a medir para tanto ofício.
Ambas as vilas têm bom queijo, paisagem magnífica, águas tranquilas e dormem o mesmo sono da morte. Mas nisto se resumem as coincidências, porque a política das respectivas autarquias tem sido bem distinta:
– Em Vila Velha há mais de duas décadas, desde o inspector Baptista Martins, a autarquia percebeu que a desertificação era inevitável, adoptando políticas integradas de valorização do património natural, cultural e edificado; investindo em projectos que garantam directamente a qualidade de vida da população envelhecida; apoiando e realizando iniciativas, que pelas oportunidades de negócios geradas, estimulem a iniciativa privada e a criação de micro empresas familiares;
– No Sabugal alguns autarcas e ex-autarcas ainda pensam, que a desertificação e envelhecimento da população são reversíveis, pelo efeito necessário e colateral da realização de grandes obras estruturais.
É a diferença entre o realismo e a pura ilusão!
O défice demográfico dificilmente se inverte quando a taxa de mortalidade há mais de duas gerações supera a taxa de nascimentos. Quando não há mulheres em idade reprodutiva, e porque as crianças não nascem espontaneamente como as giestas nos cabeços, a terra desertifica-se. A agravar isto, está a taxa de emigração dos jovens!
O trágico é que muita gente ainda pensa como antigamente. As asneiras e os milhares de euros desperdiçados não lhes fizeram abrir os olhos.
Desafia o Manuel Rito ao António Gata no jornal «Cinco Quinas» que… se critica as opções do anterior executivo, apresente soluções. Mas que resposta espera o Manuel Rito neste assunto, se ele próprio quando pode fazer alguma coisa andou às aranhas por não perceber o cerne do problema?
O padre Escarameia de Vila Velha, que lida mais de perto com as coisas do espírito e da alma, transcendentes da vida comezinha do dia-a-dia, já compreendeu a questão metafísica que o Manuel Rito ainda não alcançou. Aqui fica, pragmática:
– Somos tão poucos, que quando nós morreremos, já não haverá quem morra! (in Semanário Expresso de 10-07-2010).
Mas no caso de Vila Velha e do Sabugal, existe uma pequena nuance, que faz a diferença:
Apesar do mesmo sono da morte, o queijo Ródão ainda se faz com o leite do concelho; o Queijo Torre, há muito que não.
O Manuel Rito, se conseguir saber porquê, chegará sem ajuda às tais soluções que ainda procura…
Tarde, mas chegará!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com