O Sol a pino escaldava-me o passo, sentei-me na sombra da oliveira no penedo, meti a mão ao bolso e tirei aquela pedra que me acompanha há mais de 20 anos. Olhei-a com a mesma saudade com que a olhava em outros tempos. Levantei os olhos e tentei descortinar para lá da planície e da neblina quente que diluía o horizonte a silhueta das serras, das serras onde nasce aquele rio que me corre nas veias onde um dia apanhei aquela pedra.

Kim Tomé (Tutatux)Saudade!
Saudade da agua límpida que corre da Serra das Mesas e refresca os campos, saudade do vento frio, saudade do dourado das montanhas ao por do sol, saudade dos castelos e das histórias que as pedras contam.
Acariciei a pedra como se ao fazê-lo acariciasse aquele mundo de que me obrigaram a partir de forma violenta.
Relembrei o dia em que cheguei de forma definitiva (pensava eu) à terra e ao rio que me viu nascer, cheio de vontade de contribuir lavrando, com o arado do conhecimento, as lacunas dos campos da minha terra e das minhas gentes à beira da morte.
Voltei a olhar aquela pequena pedra, tentando espiar ao acaricia-la as amarguras causadas.
Relembrei o dia em que o funcionário do instituto de emprego, estupefacto e incrédulo sem perceber o alcance socio-cultural do projecto que lhe apresentava, me indagava porque razão vinha para o Sabugal fazer aquilo. Coitado, a sua ignorância impedia-o de ver o alcance do projecto. Desiludido com tanta falta de conhecimento e insensibilidade foi nesse dia que resolvi levá-lo em frente apesar da falta de apoios.
Chamei-lhe «O BARDO» referencia múltipla, ao Bardo onde se guardam os animais e aos Bardos que na antiguidade viajavam de terra em terra cantando odes às moças e levando noticias.
Acariciei de novo a pedra, olhei-a e no seu negro profundo revi momentos dO BARDO, como aquele em que o «Zé da Sra. da Graça» pegou pela primeira vez no rato e tentou escrever procurando com hesitação as letras do teclado, aprendeu e, hoje consegue viajar pelos caminhos do conhecimento sem ajuda. Relembrei um outro dia em que uma criança entrou pela porta solicitando que a ajudasse numa pesquisa para um trabalho da escola. Relembrei os olhos esbugalhados de um senhor que ao ver as fotografias do seu neto enfrentando o touro numa capeia exclamava com alegria e orgulho, «É o meu neto! É o meu neto!».
Relembrei muitas realizações e iniciativas culturais criadas, exposições, espectáculos e a Feira Franca do sabugal.
Com um aperto na alma, relembrei o dia em que na companhia de uma amiga fazia mais uma fotografia para promover Sortelha, procurava um local especial onde se pudesse ver a aldeia de um ângulo especialmente bonito nos cabeços perto, quando me ela me disse: «Sabes que vão aqui colocar eólicas?» respondi: – «impossível! isso iria destruir esta envolvente.» Mas era verdade. Ali naqueles cabeços, estavam a preparar a instalação de 17 eólicas. De imediato coloquei inúmeras questões.
Como teria sido possível que os organismos de defesa do património o tivessem permitido?
Como foram feitos os estudos de impacto ambiental?
Quem era o mentor de tal barbaridade?
As respostas a estas e muitas outras questões foram obtidas com dificuldade, pois à volta deste tema existe uma cortina de interesses dos que cometem este crime patrimonial e de medo, que cala os que sabem mais por temerem represálias.
Perante a situação de completo desrespeito patrimonial criei um blog e iniciei a recolha de assinaturas na Internet na tentativa de sensibilizar o mundo para a destruição de Sortelha.
Fui agredido fisicamente, ofendido, difamado, intimidado e ameaçado pelos responsáveis pela destruição de Sortelha.
Como resultado fui violentamente impedido de continuar a trabalhar, O BARDO teve que fechar. Com os inevitáveis prejuízos pessoais e económicos, mas também com prejuízo para o Sabugal, que assim perdeu um local único no mundo onde o acesso a computadores e à Internet se realizava de forma completamente livre e gratuita ao mesmo tempo que se divulgava culturalmente a região.
Acariciei de novo a pedra, olhei-a e guardei-a no bolso de novo. Levantei os olhos para o horizonte olhei as serras e disse para mim mesmo, «Um dia, serão anuladas estas criaturas que destroem a nossa terra, e voltaremos aquelas serras e ao rio onde nascemos!».
«O Bardo», opinião de Kim Tomé

kimtome@gmail.com

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