Todas as civilizações e épocas históricas criaram e popularizaram um tipo de espectáculo, a nossa popularizou o desporto, com quase total incidência sobre o futebol. Eu, também fui influenciado por esse modelo lúdico. Desde os meus 17 anos até aos 34, com um intervalo pelo meio, fui jogador de futebol aqui no clube da minha então Vila, o Sporting Clube do Sabugal.

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António EmidioNão vou falar da falta de condições para a prática desse desporto que naquela altura existiam (para exemplo, reparem só na mala de primeiros socorros que está na fotografia). Tudo se fazia com sacrifício, sacrifício dos dirigentes, dos técnicos e dos jogadores. Não estou a dizer com isto que não se gostasse de jogar nos «pelados» (não havia outros), de orientar uma equipa sentado num banco de madeira sem cobertura e, trabalhar a parte administrativa numa sede geladíssima no Inverno, o futebol é um desporto de Inverno.
Dinheiro? Escasseava. Tudo era amadorismo puro. Estais recordados companheiros de tantas equipas? Está recordado Alfredo Torres? Está recordado Manuel Rasteiro, quando antes de entrarmos em campo, com o sistema nervoso alterado, natural, o senhor nos dava ânimo com aquela frase que à primeira vista até parece desanimadora, mas que criava um ambiente de humor e boa disposição no balneário: «Já se me está a destemperar o corpo».
Vou falar agora do que é o futebol presentemente a nível mundial. Em primeiro lugar, é um negócio como outro qualquer, o que é que em vez de fabricar um produto para venda, comercializa golos. Os clubes são empresas capitalistas e, como estas, sujeitos à concorrência, à rentabilidade, ao lucro, às percas e às dívidas. Algumas destas dívidas superam em alguns clubes europeus, os 3.000 milhões de euros.
O que é que interessa mais, ganhar dinheiro ou troféus? Justificam-se as transferências escandalosas? Os salários multimilionários? Será que os clubes estão debaixo do controlo das finanças? Responda o leitor(a), eu direi simplesmente que o futebol se transformou numa ideologia ao serviço do sistema, do poder estabelecido.
Quem tenha visto pela televisão aqui em Portugal, nos últimos anos, a movimentação de partidas e chegadas de algumas equipas de futebol e da selecção nacional do mesmo, aos campos dos adversários, reparou que se atingiu o paroxismo, esse paroxismo querido leitor(a), é uma instrumentalização do poder político e mediático para manipular e embrutecer as pessoas, fomentando o conformismo e o consenso.
O futebol fomenta a paz e a amizade entre os povos? É raríssimo o jogo de futebol onde não haja violência, onde não se veja a polícia carregar sobre grupos violentos e fanáticos.
E a corrupção dos dirigentes? E o entusiasmo com que às vezes se vêem alguns políticos em jogos de futebol, será que esse entusiasmo é verdadeiro, ou tudo não passa de baixa política?
Para corroborar o que já escrevi, um jornal do establishment – The New York Times – ao referir-se ao futebol na nossa vizinha Espanha, disse que o campeonato do Mundo que ela pensa ganhar, é uma boa ocasião para fazer esquecer a crise económica, o deficit e o desemprego. Também compara o que se passa actualmente com o futebol, com o antigo Império Romano, a estratégia do «Pão e Circo» para fazer esquecer a penúria das populações. Ontem, como hoje, e amanhã como ontem.
Para terminar quero dizer-lhe querido leitor que há futebolistas que ganham em ordenados, publicidade e outras prebendas, o equivalente a uma grande fatia do orçamento de um país subsariano.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

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