Barata Dias nasceu em Sacões, no concelho do Góis, no ano 1901. Foi para Lisboa com 19 anos, onde passou a viver. Autodidacta, escreveu livros sobre o seu povo de origem, revelando as difíceis condições em que vivia. Faleceu em 1971, sem conhecer a liberdade, que tanto ansiou para o seu país.

O romance «Alqueive» é, na peugada de outros de sua lavra, uma verdadeira denúncia das condições de vida do povo simples que vivia oprimido pelos ricos e poderosos, o que lhe valeu ser proibido e apreendido pela PIDE, pelo seu conteúdo crítico.
«Alqueive» foi publicado em 1947, com a legenda «Romance de um cavador», constituindo uma impressionante crítica social, intolerada na época por pintar, em tons sombrios, a vida dura no Portugal rural dos tempos do salazarismo.
Trata-se de um romance de escrita simples, desprovido de valor estilístico, aqui e além pincelado com vocábulos de raiz popular. Vale sobretudo pelo drama que encerra, e pela acção que corre sem parar, expondo em termos crus a vida dos assalariados rurais, que trabalham de sol a sol e mal ganham para a côdea.
O Toino é um pobre cavador que trabalha arduamente no sonho de um dia possuir um torrão. Ilusão longínqua para quem é sério, porque há que atender ao ensinamento de S. Mateus, cuja citação serve de epígrafe ao livro: «Ao que tem se lhe dará, e terá com abundância; ao que não tem, até o que tenha lhe será tirado».
Querendo juntar dinheiro para comprar uma porção de terra que ele mesmo desbravara, parte para Lisboa, onde arranjou emprego numa serração, sujeitando-se a um trabalho duro, que em poucas semanas lhe arruinará a saúde. De início procurou alimentar-se para manter as forças, embora o comer fosse frugal: «Meio-dia e o Toino foi almoçar à taberna. Felizmente que trouxera dinheiro para empatar na alimentação de uma semana, ou mais. Comeu metade de um pão e dois carapaus, e bebeu meio litro de vinho.»
Mas, ganhando pouco e precisando de juntar muito dinheiro, decidiu diminuir as despesas: «Se até ali o Toino comia pouco, para poupar, passou a diminuir a ração. Rebentaria, mas, naquele ano, havia de salvar-se. (…) Nunca mais comeu à frente de gente. Escondia-se por entre as pilhas de madeira e só se alimentava de pão.»
E a comer apenas um naco de pão e trabalhando duramente, o homem «que amansara uma terra brava» adoeceu e regressou à terra para junto da família, levando apenas a quantia suficiente para pagar «a dívida que a sua legítima ambição lhe ocasionara».
«Sabores Literários», crónica de Paulo Leitão Batista

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