Dizia-me alguém do Sabugal, referindo-se às minhas crónicas, que eram cada vez mais difíceis de perceber. Observação pertinente, respondi-lhe eu, mas é propositadamente, e tem a ver com o meu desencanto em relação às pessoas e ao Sabugal. Contudo, hoje vou falar claro, para que todos os Sabugalenses entendam…

Sortelha - Foto de Joaquim Tomé
Autoria da foto: Joaquim Tomé

João Valente«En esto, descubrieron treinta o cuarenta molinos de viento que hay en aquel campo; y, así como don Quijote los vio, dijo a su escudero:
– La ventura va guiando nuestras cosas mejor de lo que acertáramos a desear, porque ves allí, amigo Sancho Panza, donde se descubren treinta, o poços más, desaforados gigantes, con quien pienso hacer batalla y quitarles a todos las vidas, con cuyos despojos comenzaremos a enriquecer; que ésta es buena guerra, y es gran servicio de Dios quitar tan mala simiente de sobre la faz de la tierra.
– ¿Qué gigantes? -dijo Sancho Panza.
– Aquellos que allí ves – respondió su amo – de los brazos largos, que los suelen tener algunos de casi dos leguas.
– Mire vuestra merced – respondió Sancho – que aquellos que allí se parecen no son gigantes, sino molinos de viento, y lo que en ellos parecen brazos son las aspas, que, volteadas del viento, hacen andar la piedra del molino.
– Bien parece – respondió don Quijote- que no estás cursado en esto de las aventuras: ellos son gigantes; y si tienes miedo, quítate de ahí, y ponte en oración en el espacio que yo voy a entrar con ellos en fiera y desigual batalla».

(Miguel de Cervantes, El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha, edição fac-similada de 1604, cap. VIII).

Muitos dos leitores deste blogue, incluindo eu, são oriundos de uma classe agrícola, operária, de comerciantes, ou pequenos funcionários públicos, para quem a vida sempre foi uma luta quotidiana para a existência, retirando do trabalho braçal apenas o necessário para a vida, sem tempo nem meios para progredirem.
E é assim há gerações. A maioria que conseguiu dar a volta a este fado, emigrou. Ficaram os outros, e pouco mais, com as consequências sobejamente diagnosticadas por toda a gente.
Por isso, ensinar aqui do dever de progredir, da vida intelectual e moral, falar dos direitos políticos, de educação, de associação, é tarefa difícil, para não dizer inútil, porque o exercício e compreensão de tais deveres e direitos exigem um certo grau de educação cívica a que nem todos, infelizmente, puderam aceder. É uma verdade de que me vão censurar, mas com a qual vivo pacificamente; passamos por isso à frente, que o objectivo desta crónica é mais importante.
O homem é sociável, progressista e livre por natureza. É conceito que também não vou explanar, porque é terreno fértil que já deu tratados muito bem escritos e também não é a finalidade desta crónica. Tem por esta sua natureza o homem dever de associar-se e de progredir tanto quanto comporte a sua esfera de actividade, e ainda o direito a que a sociedade não impeça essa obra de associação e progresso e auxilie quando os meios de associação e progresso faltarem.
A liberdade dá-lhe a faculdade de escolher entre o bem e o mal, entre o dever e o egoísmo. A Educação ensina-o nessa escolha.
A associação dá-lhe força com a qual pode realizar as escolhas. O progresso é o fim que se deve escolher e que, uma vez realizado, prova que a nossa escolha foi certa. Há progresso? A escolha foi boa. É este o critério da evolução civilizacional da humanidade. É claro, que aqui abria campo para discutir em que consiste o progresso, o que tornaria esta crónica mais fastidiosa do que já é. Por isso, adiante, mais uma vez!
Quando falta uma destas condições, não existe homem nem cidadão, ou existe imperfeito ou prejudicado no seu desenvolvimento.
E aqui é que bate o ponto. Quer-me bem parecer que o problema do Sabugal, tal como o de toda a sociedade em geral, é a falta a educação dos cidadãos e dirigentes.
Da falta de educação, muitos não têm tem culpa porque a vida não lhes proporcionou oportunidade de a adquirirem. Mas a passividade, a inveja, a estupidez, a mesquinhez, são defeitos que dependem apenas da vontade e do carácter, e que cada um, independentemente da educação e condição social, pode e deve superar para ser um cidadão participativo na vida comunitária. E nisto se resume a liberdade individual, que permite a cada um optar entre o bem e o mal, o dever e o egoísmo.

E agora sim, o verdadeiro objectivo desta crónica:
Sortelha é uma aldeia medieval, que proporciona aos visitantes uma viagem no tempo, ao passado medieval. É nisto que consiste a grande e rara riqueza de Sortelha, a sua alma, e faz dela a jóia rara, que é património não só dos seus habitantes, como de toda a comunidade municipal.
Construir torres eólicas no seu perímetro amuralhado, ou à vista dele, fora do contexto da época histórica para a qual a aldeia nos remete, é tão ridículo como ver aviões a jacto num filme sobre os meios de transporte do século XIX. O realizador que tivesse este devaneio criativo, sujeitava-se à chacota pública, pelo caricato e estupidez da situação. Quem via um filme tão mau?
Pois as eólicas nas condições de Sortelha, matam a razão da sua existência, porque são completamente anacrónicas naquele contexto espacio-temporal, como os jactos no filme sobre meios de transportes do século XIX. Nenhum turista quer viajar a um passado medieval que uma autarquia permitiu reinventar com umas modernas torres eólicas. O conceito turístico «viagem ao passado medieval» pura e simplesmente fica destruído com isto. Passa a ser ridículo chamar a Sortelha «aldeia histórica». Com as eólicas já não é medieval e histórica, mas do século XXI e actual… Percebem ao menos isto?
Construídas as eólicas, bem podem derrubar também as muralhas, que já lá não estão a fazer nada. Aproveitem a pedra e vendam-na também para Espanha, como a electricidade!
É um resultado tão nefasto, que «Es gran servicio […] quitar tan mala simiente de sobre la faz de la tierra».
Meus amigos, este crime que estão a fazer a todo o concelho, nem a falta de educação de que falei, o justifica. Cada indivíduo, independentemente da educação, porque é livre, tem a faculdade de escolher entre o bem e o mal, entre o dever e o egoísmo…
A responsabilidade deste crime, é por isso, tanto colectiva como individual! Que ninguém lave dela as mãos como Pilatos…
Se deixarmos erguer estes moinhos de vento no rico passado histórico de Sortelha, como fatalidade inevitável da falta de educação de uns quantos Sancho Pança, «nem somos homens, nem somos nada!»
Por isso interpelo cada um dos Sabugalenses:
«Si tienes miedo, quítate de ahí, y ponte en oración en el espacio que yo voy a entrar con ellos en fiera y desigual batalla»!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

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