«Poemas» de Manuel Leal Freire…

PRECE

Em fresca manhã de Abril
Eu quero morrer na Raia
Terras pardas do Carril
A minha cova talhai-a.

Farda de contrabandista,
Dies Irae em bom latim
Mão piedosa ma vista
Monges o cantem por mim.

Meu desejo, Deus o queira,
É mesmo morrer na Raia,
Ver a linha da fronteira
Quando a vista se me esvaia.

Mas não é qualquer espaço
Que à minha alma contém.
A terra só é regaço
se for de colo de mãe.

Mas cabe em pequenas léguas
O chão por mim desjado
Outras lonjuras renego-as
A cada o seu eldorado.

Começa em Ciudad Rodrigo
Acaba em Vilar Maior
Mas voa sempre comigo
É um balão voador.

Pelo espaço deambula
Jornadeia rio e monte
levita o ar a Bismula
desce em Aldeia da Ponte

Estrela que ainda brilha
Ambição que se não perde
Ruelas de Almedilha
Ou esquinas de Valverde

Picos rupestres dos Foios
Cercanias de Arganhã
Cantochão de Frades Loios
É noite, foi-se a manhã.

Podendo não ter zenite
A vida tem sempre ocaso
O sonho, vindo o limite
Encerram-se em negro vaso.

Mas eu que não temo a morte
Hei-de morrer a trovar
De pé, igualando em porte
Os castiçais do altar.

Ponto é que à hora de noa
Cante a trova derradeira
Nos planos do Ribacôa
A dois passos da fronteira.

Afinal, apenas peço
Que a passagem ao além
Não seja fim, mas regresso
Ao humus da terra-mãe.

Manuel Leal Freire

Anúncios