O artigo do «Cinco Quinas» a respeito da «Confraria do Bucho» dizendo muito mais, pode resumir-se assim: A «Confraria do Bucho» foi iniciativa da «Casa do Concelho» apropriada por pessoas que apenas se querem promover e tirar vantagens patrimoniais dela. Independentemente do fundamento verdadeiro ou não do artigo, o seu efeito foi a discórdia na comunidade. E como a natureza de cada coisa é o seu fim, sendo este mau, também o foi, na sua génese, o artigo.

João ValenteComo dizia Aristóteles «o homem é um animal cívico, mais social do que as abelhas e os outros animais que vivem juntos. A natureza, que nada faz em vão, concedeu apenas a ele o dom da palavra […] o conhecimento desenvolvido, pelo menos o sentimento obscuro do bem e do mal, do útil e do nocivo, do justo e do injusto, objectos para a manifestação dos quais nos foi principalmente dado o órgão da fala. Este comércio da palavra é o laço de toda sociedade doméstica e civil». (In Política).
O «Cinco Quinas» que vive do comércio da palavra numa pequena comunidade, deve ter consciência da sua importância como laço de toda a sociedade local. A sua função é unir e não dividir. E assim sendo, o artigo, promovendo a divisão em vez da união; provocando mais mal que bem; sendo mais nocivo que útil; é contrário ao fim social do jornal.
O próprio editor implicitamente o reconhece, quando afirma não se ter pronunciado antes, para não criar divisões… De facto, para isto, era preferível manter o silêncio!
«O todo existe necessariamente antes da parte. As sociedades domésticas e os indivíduos não são senão as partes integrantes da Cidade, todas subordinadas ao corpo inteiro, todas distintas por seus poderes e suas funções, e todas inúteis quando desarticuladas, semelhantes às mãos e aos pés que, uma vez separados do corpo, só conservam o nome e a aparência, sem a realidade, como uma mão de pedra. O mesmo ocorre com os membros da Cidade: nenhum pode bastar-se a si mesmo. Aquele que não precisa dos outros homens, ou não pode resolver-se a ficar com eles, ou é um deus, ou um bruto». (Ibidem).
Cada um tem o seu papel na comunidade em função do interesse colectivo que prossegue. É esta a baliza e a natureza dos indivíduos e das instituições. Por tal motivo é indiferente quem faz ou deixa de fazer, desde que todos concorram com a sua actividade para o bem comum.
Neste sentido, é tão importante o «Cinco Quinas» noticiando as actividades da comunidade; como a «Confraria do Bucho» promovendo a gastronomia e um produto local; como a «Casa do Concelho» dignificando e representando a região na capital; como a Câmara Municipal apoiando a divulgação do património local; como um restaurante elaborando uma ementa de produtos locais; como a de um artesão mantendo um produto tradicional; como a de uma associação apoiando o ensino de música ou um rancho folclórico, como um lavrador tratando o seu quintal para alimentar a família; ou uma IPSS prestando apoio domiciliário a idosos.
O que interessa ao corpo é que todos os seus órgãos desempenhem as respectivas funções diligentemente, para que, por serem interdependentes, o todo não entre em insuficiência.
O mesmo deve acontecer numa comunidade.
E nesta perspectiva, o artigo do «Cinco Quinas» não levou seguramente o alimento devido às células da comunidade.
E assim sendo, porque a verdade é nos dias e hoje um conceito indeterminado que não convém reinflaccionar para não se tornar cada vez mais escassa e inacessível, independentemente do conteúdo do artigo, que é indiferente, o que conta é a intenção com que foi escrito.
É que «a mentira, depende do dizer e do querer dizer, do acto de dizer»; ela «permanece independentemente da verdade ou falsidade do que se diz» (Derrida 1996 pp 9-11).
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

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