O escritor Célio Rolinho Pires, natural da freguesia de Pêga, no concelho da Guarda, proferiu a «Oração de Sapiência» durante as cerimónias do 1.º Capítulo da Confraria do Bucho Raiano que decorreram no Sabugal no dia 17 de Abril de 2010. O Capeia Arraiana publica o valioso escrito – dividido em duas partes – no domingo, 25 de Abril, e este domingo, 2 de Maio. (Parte 2).

Oração de Sapiência - Célio Rolinho Pires - 1.º Capítulo da Confraria do Bucho Raiano - Sabugal

«O BUCHO» – Oração de Sapiência de Célio Rolinho Pires

(continuação.)
«O Bucho, em termos sociais e gastronómicos, é, assim, espécie de bandeira ou estandarte que antecede a procissão das gentes lavradeiras, simples, humildes mas fartas que, ao longo do ano, anunciará a Festa dos Sentidos, a lembrar a matança do porco com o predomínio dos cheiros e dos vários paladares.
Tudo no porco é bom e de diferente sabor. Para lá do presunto, seja ou não seja o «pata negra», o porco lá de baixo ou alentejano, o porco de pia, para além das várias entremeadas, do próprio toucinho ou carne gorda que, curtida na salgadeira, servia para amaciar o vinho, quem não se lembra, no próprio dia da matança, ou a seguir, no dia da desmancha, os vários sabores da carne nova a rescender acabadinha de tirar da vítima sacrificada, seja ela cozida ou assada no lume, a espinhela ou esterno, o soventre ou carne da barriga, as molejas, a orelheira, os boches, o fígado, o coração, os lombinhos ou lagartos, a passarinha ou pâncreas, o osso da suã que unta a barba e deixa a barriga vã, os pesunhos, os toros e os pernis, as banhas que, derretidas em panela de ferro ao lume dão untura para todo o ano e de que sobrarão os chichorros ou torresmos que, com um copo de vinho do novo e em boa companhia até Deus perdoa?… e os «riles» ou rins, a sopa dos miolos, as espadas ou omoplatas cozidas no molho das farinheiras, a barbela por onde penetrou a faca assassina, a burgigada feita com o sangue do bicho apulado no alguidar, alho e o miolo do pão centeio, etc, etc, etc…?
Em termos históricos, sociais e religiosos, a matança do porco, enquanto mantida na sua puridade original, mais não é que a continuação de um rito sacrificial de origem indo-europeia que consistia na imolação ou sacrifício do porco, um dos animais sagrados que, juntamente com a ovelha e o touro, integravam o rito sacrificial denominado suovetaurilia, complementado, às vezes, pelo sacrifício do cavalo e do próprio homem. No caso muito concreto dos nossos antepassados, o porco era oferecido a um dos três atributos do Deus dos Lusitanos. A inscrição das Fráguas, aqui bem próxima, não pode ser mais explícita: à Ussbo sacrifiquem (Loim) um porco comaiam íccona, ou seja, com a madre e os outros elementos que fazem o aparelho reprodutivo das fêmeas e a que os espanhóis chamam «conho». De outra forma: um porco do sexo feminino mas inteiro. Nada que espante: trata-se ou tratava-se de um epiceno e ainda hoje das fêmeas estéreis se diz que têm a maia ou a madre seca. O banco da matança mais não é que a ara sacrificial à imitação das muitas que por aí existem por cerros e barrocais.
A matança circunscrita à família alargada, as rezas inerentes, o vocabulário, alguns símbolos que teimam em persistir, mais não são que a cristianização posterior desses ritos antigos, sobremaneira associados ao culto dos mortos. Vejamos.
Aos preparativos da matança, aí incluída a tripa de vaca, o vinho, o azeite, o alho, a cebola, a linha e os cadilhos para atar o enchido, o pimento de cor, o pão centeio e o trigo, a farinha, dava-se o nome de Mortalha. No caso dos humanos toda a gente sabe o que é a mortalha e para que serve!
Ao peritoneu que é, como se sabe, «a membrana serosa que reveste interiormente as paredes do abdómen e recobre os órgãos nele contidos, fixando-os às próprias paredes da cavidade abdominal», e que servia para cobrir o porco na zona das banhas, depois de aberto e dependurado pelo chambaril, dava-se o nome de véu ou sudário.
O próprio porco aberto e suspenso do chambaril da trave mestra da loja representa figurativamente a crucificação ao contrário; até os dois pauzinhos na parte superior do bucho, par além da vantagem de não deixar desfazer o nó que cispa e fecha a boca do Bucho, mais não são que uma cruz equilátera do tipo das dos alvores do cristianismo e que superabundam por esses barrocais para igualmente cristianizar as Pedras afectas a ritos antigos. O De Correctione Rusticorom de S. Martinho de Dume (século VI) e algumas Constituições dos Bispados referem-se a essas Pedras a propósito de cultos que tardaram em ser assimilados pela Nova Ordem.
De uma gente poupada e ausente se dizia: «Com uma missa e com um marrano tem para todo o ano».
E ainda: «Pelo Santo André, o tal que mata as moscas, marraninho pelo pé»!
Mas, e o mais importante, é que, da ceia da matança, com toda a família alargada reunida, fazia parte impreterivelmente a reza pelos mortos da família, orientada sempre pelo mais velho, o patriarca do clã, seguida do pedido da bênção pelos mais novos, em que a fórmula era:
– Bote-me a sua bênção!
– Que Deus te abençoes!
E assim se rezava: «Pelas almas dos nossos avós, pais e mães, padrinhos e madrinhas, e já defuntos – Padre Nosso…».
A cultura dos verrões, tão generalizada entre lusitanos e vetões, terá, assim, a sua origem neste culto zoolátrico antigo. Aliás, verraco mais não é, em termos etimológicos que verraecus, ou seja, verres+aecus: igual ou parecido a porco.
José Leite de Vasconcelos aponta o termo verraco como sendo uma divindade doméstica e associa-a a ritos de carácter funerário (Religiões da Lusitânia, Vol. III). Teófilo Braga em «O Povo Português nos seus Costumes e Tradições», Vol. I, e no tocante ao culto dos mortos, afirma também: «Ligado ao primeiro rudimento social do familismo o culto dos mortos antecedeu todas as outras formas religiosas e como observa Fustel de Coulanges antes de conhecer Indra ou Zeus o homem adorou os seus mortos».
Ainda hoje, e salvo a horrível contradição daqueles que se fazem explodir entre flores e meninos, o culto dos nossos mortos é ainda e continuará a ser, penso, a grande religião universal comum a judeus, cristãos, muçulmanos, hindus, ateus, agnósticos, eruditos, ignorantes, ricos, pobres…
Quanto aos vários modelos de berrões, e do lado de lá da fronteira, sirvam de exemplo os «toros» monumentais de Guisando (Ávila), o berrão de Salamanca na ponte romana que dá acesso à parte velha da cidade, o «toro» de Talavera de la Reina (Estremadura), etc, etc. Do lado de cá, e a título exemplificativo também, são bem conhecidos os verrões decapitados de Castelo Mendo, e até, mais a norte, a famosa porca de Murça que, segundo se diz, mudava de cor consoante o partido político que ocupava o poder. Não sei se ainda muda. Menos conhecidos, embora mais próximos, mas igualmente carregados de simbolismo, entendo dever referir os casos muito concretos do Peneducho (Vale Mourisco) mesmo junto à EN 233, sendo um deles conhecido por Barnabé, o de Vila do Touro na Maçaperra, o da Cova da Raposa (Carvalhal Meão), o da Miuzela no caminho para Porto de Ovelha, o do Cabeço de S. Cornélio junto à segunda plataforma do parque eólico, o porco-perro de Águas Belas no sítio da Sangrinheira de Baixo, etc, etc, etc. No geral trata-se de figuras intencionalmente híbridas, podendo assim sugerir touros, bezerros, ursos, porcos, bodes, cavalos – ao fim e ao cabo os vários animais que integravam o rito sacrificial indo-europeu do a que já se fez referência. Muitos destes modelos não têm cabeça, o que entendo ser intencional já que colocados à entrada da civitas, de um ópido, do acampamento, nas pontes e velhos caminhos carreteiros, dizem simbolicamente da lei da comunidade em relação aos prevaricadores que era a Decapitação.
Num mundo cada vez mais ausente e descaracterizado, não posso deixar de felicitar todos aqueles que, através de iniciativas como esta, procuram o convívio, a amizade, a solidariedade, a fraternidade, um pouco à imagem das Irmandades Medievais, em busca das suas origens para através delas afirmarem uma identidade sempre muito para lá do indivíduo enquanto tal, e também (por que não?) a divulgação e a promoção daquilo que, na verdade, nos distingue – os produtos regionais. Na circunstância, o Bucho raiano e todos os seus parentes e afins. Parabéns, pois, à Confraria do Bucho Raiano e a todas as outras aqui presentes que, pela mesma via, prosseguem objectivos idênticos.
Também, e porque aquilo que aqui vos trouxe mais não foi que um saudoso peregrinar pelas infâncias dos meninos que também fomos, deixem que eu felicite carinhosamente a Banda Filarmónica da Bendada, a música dos meus verdes anos, que nós garotos íamos esperar, todos os anos, no início de Maio, ali para as bandas das Lajas e do Picoto, no caminho do ora tão celebrado Cabeço das Fráguas. É que, eles, os músicos, ao tempo, atalhavam pela Água da Figueira, Penalobo e Pousafoles e o percurso entre a Bendada e a minha aldeia era feito a pé com uma ou outra alimária quer transportava os instrumentos nos alforges. Parabéns, longa vida e as maiores felicidades e êxitos para a Banda enquanto instituição e também para todos os seus elementos, os legítimos herdeiros e continuadores de uns tantos certamente já desaparecidos que tiveram o condão de encher de alegria e de felicidade o coração da pequenada que, em todos os tempos e lugares, há-de marchar sempre à frente de todas as Bandas Filarmónicas do mundo e há-de correr sem medo atrás das canas dos foguetes como quem corre atrás de sonhos lindos. Obrigado.
Para concluir, e no que ao bucho se refere, será de acrescentar que cozido em panela de ferro, ao lume, com batatas e grelos, é de comer e chorar por mais, quer seja em dia de Domingo Gordo, dia de Entrudo, ou Domingo de Páscoa. Se for em tempo de Quaresma, e quebrando apesar de tudo a tradição, peço encarecidamente ao Chanceler, o meu amigo Dr. Paulo Leitão Baptista, que não se esqueça de tratar do assunto sério das Bulas para que amigos e confrades, autorizados por essa via pela Santa Madre Igreja, não tenham pruridos na sua consciência no que respeita a dieta, jejum ou abstinência. No dia de hoje, e se a ementa for o bucho, como pertence, porque estamos em Abril, dia 17, esse problema não se põe – a Quaresma já lá vai! Comamos então e sem medo!
Como diria o Dr. João Governo, o médico de serviço da RTP, acerca dos enchidos da Guarda: «Comam, não tenham receios quanto à saúde e, se houver excedentes, mandem para Lisboa que a gente trata do resto.»
Muito obrigado.
Célio Rolinho Pires (oração de sapiência)

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