Ramalho Ortigão ficou conhecido pela sua escrita sagaz e irónica, com criticas aos políticos, aos restos da velha aristocracia, aos homens de negócios e à sociedade em geral.

«As Farpas» é o seu livro mais conhecido, que teve a sua génese em 1871, na forma de folhetos, escritos de parceria com o seu ex-discípulo Eça de Queiroz, e primeiramente compilados sob a epígrafe «Uma Campanha Alegre». Depois, já de sua inteira responsabilidade (Eça iniciara uma carreira consular no estrangeiro), Ramalho Ortigão redige e publica «As Farpas» em sucessivos volumes.
Tendo formado o grupo dos Vencidos da Vida, com outros escritores de grande prestígio, escreveu e publicou abundantes textos em que igualmente caricaturou a sociedade portuguesa de então.
Em 1944, já postumamente, surge o volume «Costumes e Perfis», onde se compilaram artigos em que ridiculariza costumes, personagens e instituições do seu tempo.
De permeio com as sátiras, este volume tem também um texto curioso e muito significativo, intitulado «Autobiografia», que Ramalho Ortigão redigira originalmente no álbum de seu filho. Depois de divagar sobre as suas origens modestas e sobre os seus sonhos de criança, revela a revolução que se sucedeu após a leitura ocasional de «As Viagens na Minha Terra» de Almeida Garrett. Com essa leitura ganhou o gosto pelas letras, o que o levaria a ser também escritor, mas um escritor de forte intervenção social e política. «O Acaso fez de mim um crítico. Foi um desvio de inclinação a que me conservei fiel. O meu fundo é de poeta lírico».
Os textos de Ramalho Ortigão compilados em «Costumes e Perfis», têm também referências gastronómicas, que aqui importa assinalar. Desde logo em «A Padeira de Avintes», onde ironicamente se fala de uma padeira, que afinal era barqueira, e que se dizia de Avintes, quando na verdade era de toda a borda de água «desde o Areirinho até ao ribeiro de Arnelas». A barqueira passa gentes e mercadorias entre as margens do Douro e também sacha e monda a horta na sua aldeia ribeirinha. E mais: «Vem à cidade, onde umas vezes vende carne de porco, outras vezes os famosos biscoitos de tosta, morenos e estalejantes, bem conhecidos nos chás pacatos das reuniões familiares e das assembleias recreativas, ou a boroa já de milho branco já de pão de mistura, cuja grossa côdea lourejante, esquadraçada em manchas de escumalho cor de mel, cintila ao sol como polvilhada de âmbar.»
Revelador também dos bons sabores é o texto «Rosa Araújo», de suprema e refinada ironia, onde, elogiando, ridiculariza um filho de Portugal, de nome Rosa Araújo: presidente da Câmara e «primeiro obeso de Lisboa», que um dia emprestou as suas calças a um elefante que lhas pedira com medo que lhe rebentasse a pele por ter comido muito. E onde entra a gastronomia? Na referência ao pastel Rosa Araújo: «Ele deu o nome a um pastel delicioso; ou antes, um delicioso pastel de sua invenção lhe deu o nome a ele.»
Ora o caso não é original, pois é absolutamente comparável com o do romancista gaulês François René de Chateaubriand: «Chateaubriand teve a fortuna de dar o seu nome a uma especialidade de bife. Daí a imortalidade desse génio através das diversas gerações (…). O bife Chateaubriand ficou, e será eterno enquanto no universo houver homens com apetite, e bois com lombo.»
«Sabores Literários», crónica de Paulo Leitão Batista

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