Era Abril. Na madrugada de uma noite vozes da resistência soaram na rádio. Grândola Vila Morena era a última senha para que o Movimento das Forças Armadas (MFA) avançasse para a conquista da liberdade. Liberdade, Igualdade, Fraternidade, da Revolução Francesa transformam-se em «Democratizar, Descolonizar, Desenvolver».

José Manuel Monteiro - «Largo de Alcanizes»«O Povo está com o MFA» – O movimento transforma-se em revolução. Nas praças o povo grita, chora e canta. Conquista o espaço, cheira os cravos vermelhos que do cano da espingarda e na mão de uma criança faz a «Poesia Descer à Rua».
Quem trabalha exige direitos.
«A Terra a quem a Trabalha» grita-se nas terras de Catarina Eufémia.
Nas fábricas nasce «o controlo operário».
Nas escolas ensina-se o impossível e vivem-se os restos do Maio de 68 – «Proibido proibir», «Imaginação ao poder», «A novidade é revolucionária, a verdade, também».
«Só a verdade é revolucionária».
Nos bairros nascem as comissões de moradores.
As Comissões Administrativas tomam conta das Câmaras Municipais.

Descoloniza-se, democratiza-se, começa o desenvolvimento.

Nas vilas e aldeias do Portugal mais profundo, muitos deixam a velha candeia a petróleo e passam a ter energia eléctrica. O cântaro para ir á fonte, dá lugar ao simples gesto de abrir a torneira em casa. Abrem-se ruas para colocar esgotos. Faz-se teatro e declama-se poesia. Nos bancos das escolas, sentam-se pessoas que enquanto crianças nunca o foram. Aprendem a aprender. Todos, mas todos mesmo, participam na vida que sentem também ser sua. O sonho já não é oprimido e até escolher quem governa passou a ser realidade.
Maio junta-se a Abril, e multidões nas ruas cantam em uníssono «O Povo é quem mais ordena».

Passaram 36 anos daquele dia 25 de Abril de 1974.

Comemorar Abril é continuar a sonhar. Comemorar Abril é manter vivo os seus valores, é lutar pelo desenvolvimento da nossa Terra. Comemorar Abril é exigir mais justiça na distribuição da riqueza e igualdade de direitos e oportunidades para todos os cidadãos.
Continuar Abril é acreditar que o futuro se constrói com a participação de todos, em todos os domínios do nosso quotidiano. Com trabalho e luta, mas também com alegria e confiança na construção de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.
Abril exige comemorações. Mas, Abril exige movimento, rupturas, utopias, exige de todos nós, homens e mulheres de todas as gerações, que digamos:

«Chega. Não matem a Esperança de um Mundo Novo.»

«Largo de Alcanizes», opinião de José Manuel Monteiro
jose.m.monteiro@netcabo.pt

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