A realização do 1.º Capítulo da Confraria do Bucho Raiano realizada na Cidade do Sabugal no passado dia 17, onde foram entronizadas algumas dezenas de confreiras e de confrades, entre as quais orgulhosamente me incluo, coloca-nos o desafio urgente e essencial de certificar o Bucho Raiano enquanto Especialidade Tradicional Garantida (ETG).

Ramiro Matos – «Sabugal Melhor»Segundo o Regulamento (CE) n.º 509/2006 da União Europeia, um produto é classificado como ETG quando:
1) se distingue claramente de outros produtos ou géneros similares pertencentes à mesma categoria;
2) demonstre ser de uso comprovado no mercado comunitário por um período que mostre a transmissão entre gerações; e,
3) beneficie do reconhecimento da sua especificidade pela Comunidade, por intermédio do seu registo em conformidade com aquele Regulamento.
Para integrar o registo das ETG, o produto agrícola ou o género alimentício deve ser produzido a partir de matérias-primas tradicionais ou caracterizar-se por uma composição tradicional ou um modo de produção e/ou de transformação que reflicta o tipo de produção e/ou de transformação tradicional.
Ora esta questão ganha importância acrescida, pois não basta dizer «Bucho Raiano», para que o mesmo seja classificado.
Na verdade o processo de certificação é complicado e exigirá de todos – Confraria, Câmara Municipal e Produtores – um empenhamento neste processo, o qual exigirá, uma definição clara do que se entende por «matérias-primas tradicionais», «composição tradicional» e «modo de produção e/ou transformação tradicional».
Dito de outra forma, socorro-me do que nos foi dito no sábado pela Confraria do Bucho de Arganil, Concelho onde havendo duas aldeias com o bucho, só uma é reconhecida pela Confraria por ser a única onde se utilizam matérias-primas, composição e modo de produção tradicionais.
ETG - Especialidade Tradicional GarantidaImporta assim que todos cheguemos a acordo sobre a origem e raça dos porcos, bem como dos métodos da sua criação e engorda; sobre as partes do porco que integram o Bucho; e, sobre as formas de o produzir, encher e secar.
Por último, uma breve referência a um termo que tem aqui uma aplicação fundamental e refiro-me ao termo «derrogação».
Na verdade, muito vezes se diz que a legislação sobre segurança alimentar impede ou condiciona a continuidade dos produtos tradicionais.
Pois exactamente por causa disso, a legislação comunitária em vigor, estabelece um conjunto de regras derrogatórias da Legislação geral para os produtos com características tradicionais, que são os que são reconhecidos historicamente como produtos tradicionais; fabricados de acordo com referências técnicas codificadas ou registadas ao processo tradicional, ou de acordo com métodos de produção tradicionais; ou protegidos como produtos tradicionais por legislação (comunitária, nacional, regional ou local).
Isto é, o reconhecimento do Bucho Raiano enquanto Especialidade Tradicional Garantida (ETG) permitirá igualmente retomar velhas práticas ancestrais de produção do mesmo, naturalmente garantindo níveis adequados de segurança e higiene.
Por tudo aquilo que acabo de escrever, deixo um repto a todas as confreiras e confrades para que, juntos, levemos a cabo uma jornada de reflexão que permita definir os passos a dar para que o reconhecimento do Bucho Raiano e de demais enchidos da nossa raia enquanto Especialidades Tradicionais Garantidas seja uma realidade.

Página com Produtos Tradicionais de Qualidade na Região Centro. Aqui.
«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos
(Presidente da Assembleia Municipal do Sabugal)
rmlmatos@gmail.com