Hoje vou entrar, sem pedir licença, pelos «sabores literários» do Paulo Leitão. Há um livro de Eça de Queiroz, publicado em 1874, que se manteve actual até finais dos anos sessenta, nesse Portugal rural. O Crime do Padre Amaro, assim é o título.

António EmidioVamos enquadrar a época histórica de 1874 até 1970. Nesse espaço de tempo, 96 anos, talvez com o parêntesis da 1ª República, ou talvez não, o vasto Mundo Rural Português, atrasado e pobre, com uma percentagem impressionante de analfabetismo, foi uma presa extremamente fácil da igreja católica, presa da sua influência.
O Estado Novo acentuou ainda mais essa influência. Salazar, o fundador do Estado Novo, começa a sua vida de estudante no seminário de Viseu. Foi depois, já homem, um dos fundadores do Centro Católico Português. Um agente especial de Pio XI, o padre peruano de nacionalidade americana, Mateo Crawley Boeevey, convence Salazar a entrar na política de então, e a tomar as rédeas do poder. Já no Governo, Salazar baseia as suas doutrinas políticas e sociais nas encíclicas Rerum Novarum e Quadragesimo Anno de Pio XI. A igreja católica foi um esteio seguro da ordem e da estabilidade do Estado Novo, foi a maior aliada de Salazar durante o seu longo «reinado». Não é de estranhar portanto, quando eu digo que em 1970, com matizes próprias da época, a igreja tinha um comportamento idêntico ao de 1874.
Vamos agora às iguarias: o livro está recheado delas, mas eu vou referir somente as do jantar que o abade da Cortegaça deu em sua casa ao padre Amaro, ao cónego Dias, ao padre Natário, ao padre Brito, e ao «mariquinhas» Libaninho. Quem serviu à mesa foi a Gertrudes, criada do abade.
Começa o jantar com um suculento caldo de galinha, seguido de uma cabidela de caça, especialidade do anfitrião, segue-se um capão recheado que até à mão foi comido. Tudo regado com um bom vinho da Bairrada. Sobre a mesa estavam espalhadas malgas de apetitosas azeitonas.
As variadas e doces sobremesas foram acompanhadas com um Porto 1815.
«Um pobre viera então à porta rosnar lamentosamente padre nossos, a Gertrudes meteu-lhe no alforge metade de uma broa.»
O aparecimento do pobre levou a conversa para a pobreza que grassava nas Freguesias em redor. Dizia o abade da Cortegaça:
«…há pobreza deveras. Por aqui há famílias, homem, mulher e cinco filhos, que dormem no chão como porcos e não comem senão ervas.
– Então que diabo querias tu que comessem? – exclamou o cónego Dias, lambendo os dedos depois de ter esburgado a asa do capão – querias que comessem peru? Cada um como que é.»
Demorou o jantar três horas. Quando se levantaram para ir tomar café à sombra de uma parreira, todos cambaleavam ligeiramente.
Se por acaso ainda não leu o livro querido leitor(a), leia-o, porque vale a pena. Não pelas iguarias, mas pelo comportamento moral da maior parte dos representantes da igreja católica.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

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