(Este texto poderia ser escrito por Medina Carreira – todos liam, mas depois ninguém levava a sério – acrescentando no entanto umas quantas baboseiras típicas de quem nunca fez nada, mas numa manjedoura farta, se acha no direito de emitir opinião.)

Agostinho da Silva - JarmeloMuito se tem dito sobre a vaca jarmelista, uns de forma mais assertiva outros de forma mais gratuita, lá se vai falando. E fazendo? O que é que realmente se faz?
Já fui considerado o «homem-vaca» ou até o pai da vaca jarmelista, mas isso não me confere nem mais nem menos direitos públicos que os demais. Conferiu-me, até por inerência de funções, a tarefa de tentar salvaguardar o que os nossos antepassados um dia para nós seleccionaram.
Nos mais de dez anos que levei nesta luta, muito cedo fiz o prognóstico deste momento que em paralelo com o momento que vivemos, nos poderá, para já levar ao chamado «calvário da vaca jarmelista».
Será que, de uma morte anunciada, poderemos ver a luz, como quem vislumbra uma espécie de ressurreição?
Fazendo um ligeiro apanhado do que foi um caminhar lado a lado, noto que no essencial, desde os finais dos anos 90 (em que me meti nisto) até agora ao final da primeira década do novo milénio, pouco ou nada se fez seriamente para evitar o desaparecimento da vaca jarmelista.
Não tivesse sido o apoio (culpa) dos Media e já tudo estava resolvido: tinha-se acabado com o maldito animal e já não se falava mais nisso! Por sorte, ou talvez não, conseguiu-se uma invulgar visibilidade, que quando transposta para a carga/capital de influência pública, torna o tema tão incómodo que os que estão fora querem entrar e os que estão dentro, não sabem como dele sair.
A questão da vaca jarmelista, só tem duas saídas, ambas de carácter político (isso sim é que me custa): deixar que o «problema» se resolva por si só, com o tempo impiedosamente a fazer estragos; ou também com o tempo, mas em «contra-relógio» (contra ciclo também) avançar de uma vez por todas para o que um dia ficou «sonhado», a implantação em «barrigas de aluguer», para se chegar ao tal efectivo próximo dos 400 animais.
Sinceramente, não vejo vontades políticas, e até das outras, para que a tal se consiga chegar. No já demasiado longínquo ano de 2003, pelo então director de serviços, Dr. Mário Costa, a Direcção Geral de Veterinária, fez-se representar, ainda hoje não tenho a certeza se oficialmente ou por simpatia, na Feira-concurso do Jarmelo. Tivemos uma longa conversa, da qual resultaram as bases do que até agora tem acontecido. Mas resultaram também muitas mais bases, que quer eu, quer o Dr. Mário Costa, achávamos fundamentais e condição sem a qual, tudo ruiria como um castelo de cartas.
O tal plano, quiçá «maquiavélico», de sustentar a existência de uma raça com nome Jarmelo associada; parecia o início de um sonho lindo, que afinal teima em se revelar pesadelo para quem nele entrar.
Com o Dr. Mário Costa, cedo concordámos (nunca nos tínhamos visto nem contactado), que a inseminação e implantação em barrigas de outras raças era a única saída possível. Ele, é um técnico superior, eu, era e sou um «estorvo» que de vacas nada sei (nem sabia), os «ilustrados» existem, andam por aí.
É inconcebível que a forma como é dado o apoio aos criadores (os tais 17, na maioria pequenos proprietários), tenha que funcionar como funciona. Aqui, terei que repor justiça na forma como a ACRIGUARDA se tem empenhado e esforçado, para manter o serviço que mantém.
E é inconcebível e incomportável, que para a Acriguarda, um dia venha a cair a «culpa» de não ter feito mais. Sem conhecer os constrangimentos, basta olhar ao mundo rural para saber que todos estão descapitalizados. Como se não bastasse a Acriguarda, com a jarmelista, tem ainda pendentes situações em tribunal.
Não duvido da imensa vontade da Acriguarda, mas já isso sim, duvido da vontade quer do Ministério da Agricultura, quer dos seus serviços desconcentrados (a última vez que afirmei isto, valeu-me 15 mil euros de apoios; espero que desta não implique algum amuo, ou similar, que resulte em cortes no que ainda não vem). Agora que já não pertenço nem á Junta nem á Feira, podem apoiar conforme é devido, pois algumas vezes fiz «pagar» o Jarmelo por pecados da vaidade pessoal (do que o Jarmelo ganhou não cabe aqui o momento).
O Ministério da Agricultura terá que de uma vez por todas tratar a «doença» com vontade de a resolver: ou assumir uma coisa (acabar com) ou outra (avançar para). Assim que se falou da possibilidade de implantação em «barrigas de aluguer», logo apareceram pessoas com vontade de colaborar e disponibilizar as suas vacas para tal.
Num processo destes, não pode haver lugar a invejas, muito menos providências cautelares; qual a moral de uma associação (pelo menos pela tomada de posição pública em programa de TV), quando a argumentação se baseia em questões económicas/subsídio de excepção? Então e todos os outros anos em que a suposta jarmelista nada recebeu? A jarmelista até ao reconhecimento oficial, recebia ZERO! E quanto recebiam as demais raças nacionais? Viram alguém reclamar apoios (solidariedade) para a jarmelista? Continuamos a olhar para a vaca como um ser que tem MAMAS!!
Num processo destes, qualquer coisa é melhor que nada, mas pode não ser o suficiente! Devem manifestar-se os criadores e eventuais parceiros a integrar, nomeadamente neste assunto das «barrigas de aluguer», e claramente compensar as eventuais perdas que venham a verificar-se face ás expectativas que se criem. Explico: não pode um produtor (num processo tão urgente como este) estar a correr «riscos» de que a sua vaca não tenha pelo menos uma cria por ano, daí que era urgente definir este género de situações par evitar (como foi o meu caso) que uma vaca em estábulo em três anos só tenha tido uma cria (não tem forçosamente que ver com as condições de acondicionamento ou manuseamento, mas em minha opinião, com a tal necessidade de munir a ACRIGUARDA (ou instituição superior) com meios financeiros e técnicos que possam suprir estas «falhas».
As vacas integradas numa vacada, manifestam o cio de forma mais visível, tendo macho serão «cobertas»; em estábulo e muitas vezes uma ou duas (acumulando no meu caso falta de saber sobre cio) dificulta muito mais. Sei que há formas de provocar o cio, sei que haverá outras maneiras de solucionar a situação… mas também sei que com esta inércia, não vamos lá
Diz-se no entanto por aí (e ninguém acredita que seja assim) que o Ministério da Agricultura (diversos serviços) além de supostamente…, também carrega de «papelada» as situações de tal forma que as pessoas comuns não podem ser «bafejadas» (termo do reino animal em época de prendas – menino Jesus, presépio).
A propósito: só no concelho de Lisboa (esse concelho extremamente rural), trabalham (ou trabalhavam até há pouco) quase 50% dos funcionários do ministério, que sendo boa parte chefias e afins, ajudarão a consumir o que em 2006 eram 260 milhões de euros do “funcionamento” do ministério. A agricultura tem que continuar a cheirar a Merda!! E não a eventuais «Channel», a agricultura deve voltar para o campo, lá para o sítio onde estão as gentes. O Portugal profundo precisa que o Portugal «ilustrado» se volte de novo para as raízes, e delas não tenha vergonha.
As raças de vacas autóctones, as 13 reconhecidas, mais as tais, eventuais, outras seis (sub-raças da mirandesa), poderão vir a ser o «furo» para um país que tem que ser aquilo que o mercado disser: pequenos nichos, com ofertas muito diversificadas, em que os gostos de cada região estejam ali ao alcance de quem os queira voltar a sentir ou provar pela primeira vez.
Sei que já se come por aí «vitela do Jarmelo» (só porque supostamente criada em pastos das terras daquele microclima, e espero que quem eventualmente «ganhe» com isso não tenha que ter engolido algum sapo – é que ás vezes há quem bata no «amoijo»/úbere em que mama). Porque não comer mesmo Vitela jarmelista, certificada?
Como também para os que me conhecem, pouco disto é novidade, a forma como me tenho expressado publicamente é realmente um tanto provocatória (palavra que na raiz pede palavra – resposta); tantas vezes lido/entendido das mais enviesadas formas, mas que pela persistência (e sempre com apoio dos MEDIA regionais e nacionais) lá se foi fazendo ouvir.
Das diversas tomadas de posição pública sobre este e outros temas, nunca foi meu objectivo prejudicar a «causa» da vaca jarmelista, mas tão só num mecanismo de visibilidade, evitar que o caso fosse esquecido, como é tão do (bom) gosto dos decisores políticos: matá-los pela exaustão – como a visibilidade pública me alimentava o EGO, fui continuando, e criei um capital de tal forma evidente, que ainda hoje, sempre que se fala do tema, as pessoas esperam que eu também fale ou apareça. Mesmo as minhas ausências, chegam a ser tão incómodas como as presenças, os meus silêncios perturbam por vezes mais que as palavras.
Tenho que reconhecer publicamente também, que «montei estratégias» com fins muito objectivos, sendo que por exemplo em relação à Feira (posso dizê-lo) era que de uma vez por todas a Câmara Municipal (a tal do interesse), agarrasse o tema com as mãos (e com as duas). Contrariamente a outras terras, o Jarmelo está escasso de gente com ânsia de protagonismo, daí que aquilo que poderia ser um lugar apetecível, é na verdade o contrário (dá trabalho, falta apoio concertado).
Para poder aguentar mais de dez anos num tema destes, tem que se ter pele de bombo, para aguentar toda a «porrada», inveja, maledicência e outros «usos». Sempre quis acreditar que este tema não seria/serviria para a luta política, mas também percebi que era mais um local para tal, há uma atracção fatal pelo abismo.
Agostinho da Silva (Jarmelo)