Decididamente a Igreja não sabe lidar com as questões do sexo. Sempre que as mesmas se colocam na sociedade, as estruturas religiosas raramente acertam o passo, assumindo habitualmente posições contrárias ao resto da sociedade.

Papa Bento XVI

António Cabanas - «Terras do Lince»São sobejamente conhecidos os engulhos eclesiásticos acerca da inadmissível discriminação das mulheres, que constituindo a maioria dos fiéis, são estranhamente impedidas de aceder aos cargos sacerdotais. A culpa, neste caso, também é delas, pela passividade e falta de contestação, incompreensível quando comparada com a força demonstrada na luta pelos seus direitos, pela sua emancipação e pela igualdade noutras áreas da sociedade. Pelo contrário, em matéria de religião, continuam, a aceitar a subalternização, como se Deus as tivesse abandonado. Mas não será de excluir que um dia destes as mulheres façam greve à religião, deixando as igrejas vazias!
Outro tema recorrente é o casamento dos padres que, segundo alguns, resolveria o problema da falta de vocações. O Vaticano, porém, nem quer ouvir falar do assunto, demonstrando que ao nível mais elevado da hierarquia da Igreja há assuntos que são autênticos tabus. João Paulo II, apesar de mais aberto à mudança que o actual Papa, também não aceitou discuti-los. No entanto, os incumprimentos ao celibato sacerdotal continuam nos dias de hoje a fazer estragos sociais e deixar sem pároco algumas das nossas freguesias. Ainda recentemente, assistimos a uma mediática história amorosa, entre um jovem pároco português e uma sua paroquiana.
Neste capítulo, a Igreja deu alguns passos atrás, já que no passado, muitos dos clérigos eram casados e tinham filhos. Não soube, por isso, tirar partido da realidade de então, para em definitivo instituir o casamento dos padres e dessa forma universalizar o acesso ao sacerdócio. Teria matando 2 coelhos de uma só vez!
Na mais recente visita a Angola, o Papa voltou a escorregar no ataque ao preservativo, considerando-o como uma espécie de atentado à vida. Numa região em que a sida é o mais sério problema de saúde e de mortalidade, ninguém entendeu a mensagem do sumo pontífice. Neste capítulo, bem pode dizer-se que a instituição religiosa parece ter receio da inovação e do moderno. O controle de natalidade sempre existiu no passado, com formas arcaicas e bastante cruéis, como o abafamento de bebés e outros métodos, bem conhecidos e tolerados pela Igreja. Ao criticar as formas modernas, cómodas e sensatas de controlo de natalidade e que tornam as relações sexuais mais seguras, a Igreja demonstrou mais uma vez a sua dificuldade em lidar com o sexo.
Os piores fantasmas, no entanto, são as notícias que em catadupa, tem vindo a lume nos últimos meses sobre os abusos de pedofilia, supostamente perpetrados por padres em vários países do globo. Estes casos estão a abalar seriamente a ética da instituição religiosa, que não soube no passado recente lidar com o assunto, não soube tomar medidas atempadamente e assobiou para o lado, como se de assunto alheio se tratasse.
Neste particular, o problema poderá tomar dimensões mediáticas catastróficas e está a deixar o próprio Bento XVI em maus lençóis.
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

kabanasa@sapo.pt

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